A matinê do Cine Rian

Cinema de tarde. Programão de sábado. Calça jeans novinha, aquela Lewis que na época era um patrimônio. Fila grande na Atlântica. Menina bonita que não acabava mais. Uma lourinha com uma t-shirt comprado na Biba de Ipanema parecia iluminar a turminha que a acompanhava. Será que vou merecer um olhar, mesmo que seja de esguelha, mesmo que seja sem querer? Pipoca, Coca Cola, ingresso na mão, o cabelo longo e liso inspirado nos quatro ingleses que vieram sacudir a música e o comportamento dos jovens. Sim, o filme daquela tarde era HELP. As moças gritarão histéricas a cada frase dita por Paul McCartney.

Quem sabe, por sorte, depois do filme, na sequência, a turma decida tomar um milk shake de Ovomaltine no Bobs (afinal, é de lei) e, se ela, aquela lourinha da camiseta for, nasça aí mais uma chance de conexão, um sorrisinho escapado, algo inspirado por uma melodia que emoldure uma paixão que brota, algo que apenas um segundo possa se perpetuar na eternidade, algo que o escurinho do cinema não permitiria.
A adolescência tem sabor de perigo, gosto de beijo, de mão suada, de coração disparando. A moça olha em torno. Ela quer ver o filme mas também quer ser vista, sabe que é bonita, caprichou no cabelo, ousou no figurino.

Ticket to ride, delírio, o cinema vem abaixo. Cenário, ação, música, a aventura do quarteto tentando salvar o Ringo (ou the ring, o anel), está tudo aí com o colorido intenso, tão intenso quanto aquele que se projeta no mar de Copa naquela tarde de primavera. É HELP dos Beatles, algo que parecia simbolizar a rebeldia que se intensificaria nos anos seguintes, com tudo o que há de mais provocador, um instantâneo de um momento muito valioso de uma geração tão bem decodificado por Richard Lester.
E seguem as músicas entremeadas com as cenas cômicas, The night before, You’ve got to hide your love away, I need you, Another girl, sem saber direito que aquilo se tornaria a trilha sonora de nossa vida. Tardes inesquecíveis.
Anos depois o Rian foi abaixo como tantos outros cinemas de rua, levando um tanto da magia daquela época tão distante que cinema, pipoca e paquera estabeleciam entre si uma química extraordinária.

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