As cores de cada um


Garrincha era o camisa sete; Pelé era dez; Didi, oito; Zico, dez. Jogaram pelo mesmo time quase a vida inteira, o torcedor com eles se identificava, as camisas dos times eram reconhecidas e adoradas. Hoje, a numeração não respeita mais o clássico “um ao onze”, o "craque" escolhe o número de sua camisa, ou camisola, como dizem os patrícios, e você tem a camisa quarenta, vinte e três, noventa e nove... Em que posição ele atua? Na defesa ou no ataque? É o artilheiro ou o zagueiro?

E as cores do clube? A cada jogo surge uma nova camisa nos times. Um segundo uniforme sempre foi necessário, evitando confusão entre os times. Com a transmissão dos jogos pela televisão, hoje uma necessidade e, mesmo, razão da existência e principal remuneração dos clubes, mais ainda há que diferenciar os uniformes, mas a cada jogo um diferente? É fonte de renda para o os clubes, muito bem, mas e a identificação com o torcedor? O apego e a paixão pelas cores do seu clube? O Fluminense de laranja, o Santos e o Corinthians de azul, palmeiras idem, o Botafogo de dourado? Que times são esses? O alvi-negro, o auri-verde, o tricolor, onde? O ídolo mosqueteiro tem a camisa azul, com número quarenta e sete! Joga aonde? Em que time? Em que posição?

Foi-se o tempo... Nosso futebol, outrora o melhor do mundo, orgulho de um povo, hoje, em tempos de globalização e economia de mercado, virou exportador de mão de obra. Surgiu um garoto bom de bola em algum time brasileiro? Ano que vem está na Europa. Ficamos com o mediano, nossos times ficaram medianos, nossos campeonatos idem. Nem lembremos do "mineiraço"!

A Seleção Brasileira, a "Canarinho" (ainda há quem se refira assim ao nosso "escrete"?), tem sua escalação toda, com raríssimas excessões a conformarem a regra, com jogadores que atuam na Europa, ou Japão, ou Turquia... Empatia? Idolatria? Identificação? Os jogadores se tornaram pessoas jurídicas, muito lucrativas, diga-se, e nos clubes, em sua grande maioria, crise financeira, dívidas, decadência.

Esse papo nostálgico foi inspirado pelo delicioso artigo do grande Mario Filho, publicado na reestreia do nosso megafone aqui no Blog do Juca, em que o jornalista lembra a viagem, em 1024, da seleção a Tucuman, na Argentina, quando Rui Barbosa se recusou a viajar com jogadores a bordo para que não o desconcentrassem de seu trabalho. Queria evitar os "hurrahs" e que tais. Dá para imaginar? Hoje os craques têma vião fretado, quando não próprio. Cada qual com seu smartphone e seu fone de ouvido, absortos, silenciosos. Hurrahs? Algazarra? São himens de negócio, individualistas, cuidando de sua imagem e seus dividendos.