O velhinho de Porto Alegre

A senilidade tem dessas coisas, afeta a memória recente.

Falo por mim, que já passei dos sessenta, e tenho de recorrer ao artigo publicado no Globo de ontem para não me confundir.

Se não bastasse o adoçante que me esqueci de comprar por causa do diabetes, talvez a razão do amargor com que escrevo, travo extraído do café sem açúcar ou substituto, volta a revolta que senti na manhã de domingo.

Portanto, com os devidos créditos aos justificados lapsos, decerto devo ter esquecido o registro de alguma manifestação de peso a favor da inocência de Lula na quarta-feira passada.

Isso se coubesse ao povo julgá-lo em matéria criminal. Neste caso, imagino o tamanho do tribunal, em especial a área destinada ao corpo de jurados, projetado para uma capacidade de milhares de itaquerões, obra de sua lavra tocada pela amiga Odebrecht.

Perdão pela faraônica quimera que abro em parêntese, de fazer babar o exagerado companheiro Cabral, mas que belo pixuleco percentual sairia dessa transposição de poderes, e aqui fecho a monumental elucubração.  

Fato é que nunca antes na história deste país, uma personagem fictícia, morta e enterrada pelo criador, volta do além para desembarcar em Porto Alegre sem falar coisa com coisa, completamente desnorteada entre A palavra e o grito, artigo sem pé e nem cabeça. Ou cabeça de vento estocado há anos de ingênua credulidade.

Politicamente bipolar desde o prematuro passamento, coitada, morta de vergonha de seus arraigados credos, a zumbi compara o grito ensaiado de palavras de ordem na capital gaúcha com a efetiva palavra da ordem pública.

Dia de bloco na rua, perdida em fantasia de globetrotter, trotou vestida de gaúcho para exibir toda sua confusão mental, sentimento travestido de indignação cívica.

Pois é, deu no New York Times. Mas em artigo assinado como o do velhinho de Porto Alegre, e não como matéria apurada para se transformar em notícia, a exemplo do que enviava o correspondente Larry Rother para o citado jornal.

Sim, minha memória remota indica que o gringo é aquele mesmo que, em 2004, tempos de Mensalão e início do Petrolão, Lula quis expulsar sumariamente de seus domínios.

O cartão vermelho representou um enorme abacaxi para o Itamaraty descascar, mesmo aparelhado pelo bolivariano Marco Aurélio Garcia, o futuro Top-Top. Na verdade, melhor dizendo, constituía batida de abacaxi.

A condenação foi exigida pelo pretenso absolutista mesmo depois de 500 reportagens do jornalista publicadas no periódico, em 40 anos de Brasil.

Sim - cabeça minha - o motivo do pretendido banimento foi que, em uma delas, o repórter americano disse que Lula enfrentava problemas com bebidas alcoólicas, notoriamente uma mera alucinação ianque.

Ocorre que, graças ao juiz financiado pela CIA, a adega de Atibaia, constante dos autos do próximo processo do condenado, há de reconfirmar a visionária matéria.

Samba do crioulo doido mundial, com ONU no meio, a personagem se perdeu ao voltar a denunciar o golpe, agora respaldado por todo o poder judiciário, cuja instância máxima ela esquece – maldita amnésia - que foi obra amiga.

Gigantesca como sugere ou acanhada, como me recordo vagamente; espontânea ou organizada, conforme lembram os jornais, importa o fiasco político e o resultado jurídico pelo placar mais elástico possível.

Se vocês pensaram na Dilma, é sinal de que estão atentos ao texto, mas o buraco negro onde a velhinha travestida se meteu é mais ao norte.

A velhinha fantasiada de gaúcho não é de Belo Horizonte, mas de Taubaté. Lembro bem da veneranda senhora que, morta, parou no tempo, e segue acreditando no governo. Só que no do finado PT, coitada.

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