O homem que adoecia as mulheres

Heleno – vocês irão entender os motivos que me impedem de revelar o nome verdadeiro – é daqueles seres que todos acham fácil de se relacionar. Bem-humorado, tranqüilo, confiável, sem manias insuportáveis nem defeitos ou virtudes incontornáveis. Como Ruivo bem definiu certa vez, uma pessoa soft.

Para que não pairassem dúvidas sobre o termo, o próprio Ruivo completou: 

- Brinco com minha mulher que ele é tão legal que, se pudesse, teria um filho com ele.

Homens ou mulheres, não houve quem contestasse. Heleno é uma espécie de unanimidade de longo prazo em tempos de relacionamentos que começam sem querer no whatsapp e terminam na simples mudança de status no facebook.

Talvez por saber que desperta este tipo de sentimento, a ideia só tenha surgido recentemente para ele, como o próprio nos contou na festa do segundo aniversário da filha do nosso amigo Ruivo.

- Lembram da Aninha? Terminamos há menos de um ano. Quer dizer, ela terminou. Encontrei esta semana na rua. Tava rolando aquela conversa vazia, de quem se acha civilizado. Até que perguntei da saúde. Nem sei o motivo, ela parecia ok.  Em vez do burocrático ‘tudo bem’ que eu esperava, ela apontou pro pescoço, uma cicatriz praticamente imperceptível.  Tinha retirado um pequeno tumor. Nada muito grave.

E, depois de uma curta pausa para aumentar a dramaticidade:

- Ela batizou o tumor de Heleno.

Alguns sorriram, mas a maior parte da plateia não teve reação. Como se ainda esperassem o final da piada. Fomos salvos do constrangimento pela convocação para cantar parabéns.

O momento certamente não integraria as memórias coletivas do nosso grupo, aquelas histórias comuns que, repetidas a cada encontro, parecem sempre frescas, deliciosas e especiais. 

Mas rememorar o encontro com Aninha foi para Heleno como apertar o botão de rewind dos seus relacionamentos, digamos, interrompidos, já que ele nunca foi capaz de tomar a iniciativa do adeus. Maria tinha descoberto uma hepatite poucos meses depois de não estarem mais juntos. Sônia – que todos achavam formar o par perfeito com nosso amigo, por ser quase tão legal quanto ele – pegou uma pneumonia na semana seguinte ao fim do namoro. Manu teve diagnosticada uma disfunção na tireoide num exame de rotina feito logo após deixar o apartamento que dividiam. 

A lista começava a se tornar incômoda. Seria apenas coincidência? Heleno recordava que, enquanto estavam com ele, suas ex tinham uma saúde de ferro. Sequer a lembrança de uma gripe mais forte.

Confesso que cheguei a imaginar que existia um outro Heleno, alguém que só se mostrava na relação a dois. Isto explicaria o motivo de seus relacionamentos nunca durarem. Mas todas, quando estavam com Heleno, provocavam a inveja das amigas dizendo que ele era perfeito: companheiro, carinhoso, compreensivo, de bem com a vida. Mesmo com o fim dos relacionamentos, claro que dava para perceber alguma mágoa, porém nunca escutei uma crítica. Imagino sinceramente que nem desconfiem o que fez mal a elas.

Talvez o problema seja exatamente a perfeição. Ela é como o sol. Na distância adequada, traz luz à nossa vida, é agradável. De muito perto, toda aquela beleza é destrutiva. 

Desconfio que nós simplesmente não conseguimos enxergar as verdadeiras sequelas nestas mulheres. 

 

 

 

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