O rascunho da história

The Post - a guerra secreta – é um filme excelente, obrigatório para quem concorda, sonha ou mesmo pensa em perigosas bobagens como controle social da mídia, democratização dos meios de comunicação e outras carnavalescas fantasias para censura oficial, direta ou indireta.

O filme é um monumento à liberdade de imprensa, ambientado nos Estados Unidos, então perdidos no Vietnã, guerra que acompanhei na minha adolescência por causa da repercussão do movimento hippie, que chegava ao Brasil pela música de oposição. Afinal, era um garoto que amava não só os Beatles e os Rolling Stones, mas também a turma pacifista de Woodstock, que lutava contra a mesma nota ra-ta-ta-tá.

Como a obra é fiel aos fatos, em tese, não haveria spoiler, porém, como ninguém é obrigado a conhecer aquilo que vivi por excesso de interesse e, vá lá, idade, vou poupá-los de qualquer menção sobre as mentiras do governo americano – democrata e republicano - sobre a situação no sudeste asiático.

Contudo há, em um diálogo entre a dona do Washington Post e o editor-chefe do jornal, uma citação que ela atribui ao falecido marido dela, a de que a notícia é o rascunho da história. Sim, pode ser. Ou não.

Que fim levaram as notícias publicadas no Pravda de Stalin? E as do Granma sobre Fidel, como serão transpostas para a posteridade? Imagino o que o pobre periódico gastava com papel apenas para o resumo dos intermináveis discursos do comandante.

Como, além dos charutos, Chávez gostou da receita cubana, seu sucessor Maduro continua mandando publicar o que o passarinho encarnado lhe canta aos ouvidos nos jardins do Palácio Miraflores, em Caracas. E ai de quem desafinar na transcrição da partitura do trinado. Acabará na justiça, igualmente dominada pelo encantado gorjeio bolivariano.  

Daí que imagino a nossa já apequenada corte suprema diante de uma opinião pública diariamente enganada, sufocada por narrativas companheiras as mais delirantes e estapafúrdias, com os jornais não aliados amordaçados ou à míngua, alijados dos gordos planos oficiais de mídia.

É certo que, caso o cenário venezuelano seja infortunadamente transportado para cá, Lula deixaria de ser o corrupto condenado que é para ser um herói injustiçado pela zelite branca.

Portanto, tudo dependerá da história passada a limpo. Higiênico ou não, o que não pode faltar é papel para rascunho. E tinta para o devido contraste, naturalmente.

 

 

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