Carnaval sem índio

 

Minha educação religiosa em escola pública foi um absurdo, a começar pela professora, uma bruxa de dar inveja à Dilma, colega de vassoura e caldeirão que, por sinal, escapou da atual inquisição até aqui. Logo ela, a saudadora da mandioca que foi flagrada atracada com uma ruivinha sempre à venda, tudo ali no escurinho de um anexo em Pasadena.

Se bem que o caldeirão atual tem servido para preparar tucano ensopado com chuchu, iguaria já batizada de FUCK, com H mudo, enquanto o presente artigo pretende tratar de um carnaval onde a fantasia de índio está proibida por nossos patrulheiros morais.

Incansáveis, os vigilantes do lugar da fala tupi-guarani apitaram falta grave. Em consequência, deram cartão vermelho-urucum aos foliões fascistas, todos exploradores da cultura indígena, a genuinamente nacional.

Se o índio já não podia querer apito desde outros carnavais, arrolado junto à cabeleira do Zezé e calçado com o mesmo modelo que serviu à Maria Sapatão, o de 2018 há de ficar marcado como aquele em que a pintura do corpo, a tanga e as penas serão punidas com penas duríssimas. Os recalcitrantes serão condenados à leitura de abalizados textões acadêmicos, enquanto cartilhas pedagógicas tratarão de infundir a culpa nos ingênuos e desavisados.

E aqui retorno à traumática experiência infantil. Nada de assédio sexual, mas da lógica. Nós, alunos de catecismo da rede pública de ensino primário, ficávamos sabendo que folhas de parreira cobriam as vergonhas de Adão e Eva, casal que f*deu toda a humanidade por causa de uma simples maçã. Para nós, fedelhos, nem era ainda uma metáfora do conhecimento, aliás, um baita paradoxo. Nas palavras da horrorosa professora, não haveria sofrimento sem aquela estúpida desobediência, porquanto nem pecado havia na singular legislação do paraíso, ainda menor que a constituição americana.

Eu, por exemplo, não teria dor de dente, tortura recorrente em tempos de pouco flúor e muita bala grudenta. Mas e os pagãos a serem convertidos à força pelos jesuítas? Onde achar uva e maçã na Bahia, em Pernambuco, no Rio ou São Paulo do século 16 ou 17? Sim, pela lógica, eu seria Tupã de carteirinha. Nada de Deus que tudo sabe e tudo vê em tempos em que os múltiplos grampos remotos eram ficção científica da pior qualidade.

Fato é que a porra da maçã era a responsável por tudo de ruim que nos acontecia, segundo a detestável professora de catecismo, ela própria um tenebroso exemplo do mal. E eu, aos sete anos, prestes a fazer a minha primeira – e única – comunhão, fui obrigado a acreditar naquelas besteiras por causa da besta-fera pregadora do inferno. E, para complicar a compreensão, tudo originado de uma ofídica intervenção preliminar. Papo reto com serpente. Pode? Imagina um pajé tendo que acreditar nessa merda, transmitida por gestos ou em outra língua.

Em vez de mais Matemática, inquisição na chamada sobre a obrigatória missa de domingo, no mesmo horário da pelada, até porque a bola rolava de manhã à noite. Vergonha exposta aos colegas mentirosos ou católicos praticantes, eu vivia em pecado, a exemplo dos índios. E onde estavam as autoridades republicanas que não viam que o Estado já havia se separado da Igreja oficial desde 1889? E eu não sou tão velho assim.

Lembro-me que na primeira cárie do período, eu, morto de dor, mas com pavor ainda maior de dentista, sentimento que mantenho até hoje, lancei todo o meu ódio ao primeiro casal. Nada a ver com a bela Maria Teresa e João Goulart.

Portanto, a minha solidariedade aos índios se dá não pela babaquice atual da proibição da fantasia, haja vista algumas maravilhosas índias louras, mas pela comunhão da catequese forçada, da incompreensão, do sentimento de deixar passar aos meus ouvidos um monte de bobagens como se as crianças e os índios fossem imbecis. Em resumo, sou Tupã desde criancinha.

Assim sendo, rechaço a narrativa criacionista contida na pós-verdade, ora sustentada pelo PT, de que tudo começou com Lula embarcando no pau-de-arara. Já entre a uva e a maçã, fico com vinho tinto português e a torta de maçã da minha mãe.

Na falta de outros pecados mais interessantes, vale, pelo menos, o da gula nesse grande programa de índio que é o carnaval para quem já não frequenta blocos. Desejo a todos a leitura de ótimos livros, futebol europeu da melhor qualidade e sensacionais séries no Now e na Netflix. Esquindô, esquindô.

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