Well Stay Motel


A publicação deste artigo no dia internacional da mulher não passa de uma incrível coincidência, implacável ironia do cruel destino que há de colocar em evidência, no dia consagrado a elas, uma sofrida e notável personagem dos nossos dias. Portanto, ao tempo em que envio os meus mais sinceros cumprimentos às caras amigas leitoras, dedico as próximas palavras àquela que, graças ao incansável benfeitor Gilmar, defensor perpétuo da liberdade com cautelas e honorários, logrou liberar das grades as grávidas e mães dos pimpolhos até a pré-adolescência.

Nos tempos áureos dos motéis cariocas, remota época em que os jovens sonhavam em ser adultos para juntar os trapinhos e deixar a casa dos pais; quando a(os) namorada(os) ainda não podiam dormir – perdão pelo convencionado eufemismo - sem serem perturbados na casa da sogra, observado o sentido literal da expressão, tais estabelecimentos abundavam em todas as zonas, com a exceção da Sul. Lá eram relativamente raros, por ser sujeira.

Dessa forma, a corrida do ouro para a zona Oeste bravia não se fez com diligências, mas com automóveis simples rumando para pecaminosos destinos na Avenida Brasil ou na longínqua Barra da Tijuca, conforme o nome sugere, a praia dos autênticos tijucanos, como este que vos escreve.

Em modestos fuscas ou ostentosos Opalas, milhares de cariocas subiam o Alto da Boa Vista para chegarem às boas vistas em um espelho no alto do teto. Isso em tempos particularmente perigosos, em que os para-brisas mostravam, sem insulfilm ou desculpas esfarrapadas, o interior dos veículos.

Na ocasião, a língua inglesa costumava emprestar a sofisticação necessária ao motel, atributo que atraía os casais, parelhas e trincas mais que as flores de maio, mesmo que as suítes à disposição não apresentassem um mínimo de conforto. Como já diziam os então rapazes de Liverpool, love, love, love era tudo do que se precisava para atrair os amantes para o hotel com taxímetro e bombom na saída, coisa que inspiraria o Uber 40 anos mais tarde.

Por outro lado, inclusive da cidade, as áreas de São Cristóvão e adjacências encontravam-se completamente degradadas. A indústria do Sabão Português e a usina de tratamento de esgoto da CEDAE, marcos limítrofes de Benfica na Avenida Brasil, faziam cheirar mal as redondezas, o que afastava os pombinhos por motivos óbvios, eterno manancial de constrangimentos e desconfianças entre motoristas sem cinto e acompanhantes.

Graças à soma de forças entre o PMDB fluminense e o carioca, Benfica hoje é outra. Revitalizada em sua função urbana, longe de fábricas e outras fontes de poluição, essa região histórica rejuvenesceu e, até ontem, chegava a abrigar um secreto ninho de amor, destinado àqueles que reergueram, com muita dedicação, os arredores da imperial Quinta da Boa Vista.

Só que uma denúncia sobre o que havia no parlatório do Motel Benfica ou Well Stay Motel – e não vai aqui nenhuma sugestão de sexo oral – fez com que as suítes com coração na parede, tevê e luzes vermelhas fossem descobertas.

Hoje, unindo-se a transferência de Cabral para Curitiba com o posterior desbaratamento da rede que infiltrava garotas de programa no Palácio Prisional de Benfica, desconfia-se de quem seja a denunciante.

Já ele, coitado, sem o médico particular de plantão, igualmente solto por Gilmar, sem Viagra na quentinha, pode tirar proveito da desagradável situação. Sim, creio que os frutos dos ciúmes de Adriana poderão até ajudá-lo no fim das contas dosimétricas, ao menos reduzir de três para dois dígitos a pena total, a ser cumprida em uma remodelada Benfica, sem mentiras, explorações, discriminações ou preconceitos.