Brioche nosso

Adoro pão. Francês, italiano, australiano, baguete, meia-lua, ciabata, rosca, branco, preto, moreno, feito de farinha comum ou integral. O que vier eu traço, de preferência com o bico quentinho arrancado e devorado no caminho, miolo fumegante até a manteiga, queijo, azeite, sal, geleia, requeijão, presunto – cozido ou cru. Mas também vale fresco ou requentado na chapa ou no forno.

Certa vez, com a perna no estaleiro, maldade de algum zagueiro, na pele de um sofredor vigilante do peso, processo de emagrecimento calcado na aritmética tabulada de calorias, tabuada de xícaras, colheres e punhados, bradei diligente à fiscalização caseira: - troco tudo por pão.

Tudo significava arroz, feijão, batata, aipim, cerveja, macarrão, o que não fosse água, alface ou agrião, mas não saberia dizer se trocaria o meu pão por bitcoin, como fizeram Cabral e sua turma de administração penitenciária de ponta, que deveria incluir o bico, em sua cruzada gastronômica em prol da saúde física e mental de detentos obesos e/ou diabéticos.

Para tanto, uma idônea organização sem fins lucrativos, com camadas alternadas de benemerência, justiça social e caridade cristã, foi acionada para fornecer pão bom e barato aos internos no café e no lanche. Funcionando como gergelim na periferia da massa carcerária, a instituição civil de interesse público apresentava o ingrediente adicional de contar para a diminuição da pena dos padeiros voluntários.

Em minha imaginação recheada de ingenuidade e geleia de morango, a princípio pensei que o bitcoin fosse metafórico, pois uma coisa é molhar o pão – no leite ou na sopa – e outra coisa é lavar. Daí que, pelo preço cobrado ao estado do Rio de Janeiro, imaginei que a iguaria preparada nos presídios pudesse ser um tipo de croissant em forma de moeda pseudovirtual, na verdade uma finíssima massa folhada, sabidamente uma quebradiça covardia dos deuses franceses.  

Entretanto, a leitura da matéria acabou por me provocar azia, algo como se tivessem adicionado bromato no tratamento aos custodiados.

Fato é que a massa carcerária recebeu mais uma dose de fermento ontem. Os próprios chefs poderão testar o produto em pleno Palácio Prisional de Benfica.

Morrendo de inveja em Curitiba, do desterro em sua particular Conciergérie, Cabral talvez já se sinta como a Maria Antonieta. Com improvisados guardanapos na guilhotina, o sentenciado ao centenário penal já sonha com a operação Brioche Nosso, a ser deflagrada assim que o rei chegar à masmorra.

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