O mártir de cada dia


Rio, 40 graus.

Acabo de passar pelo velório de Marielle, a mártir da causa igualitária assassinada ontem no Estácio. Há 50 anos, no mesmo mês de março, uma bala no peito calava o estudante Edson Luís no vizinho restaurante universitário Calabouço, ali onde se ergue o Trevo Edson. E, da mesma Cinelândia da realidade brasileira, onde agora Marielle é chorada, partiria a Passeata dos 100 mil. Filme velho. Para o martírio de Edson Luiz, assassinado também no mês de março, bastou uma bala covarde; para matar Marielle e Anderson, seu condutor, foram nove os disparos. O ódio aumentou, mas a mira é a mesma. Edson Luiz, 1968, Chico Mendes, tiro de escopeta no peito, 1988, Marielle, 2018. O Brasil não fabrica mártires que possam ser marcados por décadas decadentes, aqui se produzem mártires todos os dias, pretos, brancos, ricos, pobres. A morte de Marielle é emblemática. No campo das emoções, é comovente. No altar das crenças, inacreditável. No espaço do convívio social, inadmissível. No campo da ética, imoral. No campo da lógica, irracional. No da inteligência, burrice incompreensível. No campo da política, retrocesso. Para os aproveitadores de sempre, mais proveito. Para os radicalismos, estopim. Para as instituições, um risco. A marcha de 1968 reunia, às duas da tarde, 50 mil pessoas; ao final do dia, quando partiu em direção à Candelária, arrastava 100 mil. Dizem que o martírio é o testemunho do derramamento do próprio sangue. “Solto o ódio, mato o amor”, cantava Luís Melodia, em “Estácio, Holly Estácio”. Era um caso de amor transformado em ódio: “se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio”. No Rio, hoje, 40 graus. Há um bocado de gente reunida na Cinelândia. Nas escadarias da Câmara Municipal, onde se costuma encenar o Auto da Paixão de Cristo, uns choram, outros discursam, uns fumam, outros bebem cerveja. E, parece que a chapa vai esquentar.

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