A verdadeira dimensão da tragédia

20/03/2018

Pago o preço da escolha: nasci brasileiro nos anos cinquenta, em escuridão medieval espírito-santense. Vim morar no Rio de Janeiro quando a cidade já descia a ladeira, desprovida da primazia, e empurrado pelas baionetas do golpe, então glorificado como Revolução. Assim mesmo: com R maiúsculo, em posição de sentido, e sem qualquer sinal de cinismo.

Moro aqui desde então. E encarnei a eterna oposição ao poder…

Vi a Guanabara ser invadida pelos fluminenses e papa-goiabas. Incorporar a política e os votos de um estado Rural chamado Rio de Janeiro, cujo principal legado foi a obra de Roberto da Silveira e do primeiro genro de Getúlio. Que nos deixou o seu próprio genro, o "profissional" Wellington Moreira Franco (ou não), e que bem poderia ser a identidade secreta daquele herói dos quadrinhos conhecido como “O Sombra”.

Fiz coro para o Engenheiro.

Votei num homem honesto que faliu a cidade; militei enquanto pude nos anos sessenta, e frequentei as passeatas dos cem mil; das diretas já; a dos vinte centavos, e até as do impeachment. Pago o preço de estar à esquerda da Direita e à direita da Esquerda: ninguém me convida para o facebook nem compartilha os meus twitts...

Trago como marca indelével a experiência de ter estudado num colégio, em Botafogo, cuja Diretora - um ser maravilhoso a quem devo muitíssimo -, era irmã do Marcelo Alencar, o que me tornou contemporâneo de dois gênios das finanças tupiniquins, que atendiam pelo nome de Marco Antônio e Marco Aurélio…

Vi as enchentes de 66 e 88. E perdi bens na de 2011. Assisti, atônito, às eleições de Benedita, Garotinho, Rosinha, Cabral e Pezão. Não pensem que meus candidatos fossem melhores do que essas opções vitoriosas: simplesmente anulei o que não deveria corroborar nenhum tipo de escolha. Ledo engano.

Também não votei nos Marcelos para a capital do estado; nem na Dilma e no Temer. E, antes que me perguntem - sim, eu votei no Lula em 1989 e no Aécio em 2016. Votei no que achava certo.

Hoje não voto mais.

Não me entendam mal.

Voto apenas para não ser punido por um Estado paternalista. Não quero enfrentar filas para pagar uma multa ridícula, cujo único objetivo é subjugar a minha consciência.

Você pode ter dinheiro, mas dará seu tempo e sua humildade para recolher uma multa tão insignificante quanto seu voto… Mas, entenda: sem ele, não podemos dizer que o povo quis assim…

É isso o que me diz a penalidade simbólica.

O Rio paga hoje o preço de sua História, claro que com os meus votos já computados.

Como seria essa terra se?…

Se Tiradentes fosse pra valer. Se a transferência do Império fosse pra valer. Se o “Fico” fosse pra valer. A República. A “Caça aos Marajás”. Eleição do Lula. “Desoneração Fiscal”. "Equilíbrio entre Poderes”. “Impeachment”, “Responsabilidade Fiscal”, Partidos Políticos, Redes Sociais…

Pago o preço da servidão: sirvo como dado nas pesquisas; como contribuinte na arrecadação; como parte da massa, pagante da Fetranspor; vítima do sistema bancário; estatística de desemprego, integrante da classe média; eleitor sem voto.

Meu voto não faz diferença. Nem o de quem votou.

Cabral foi eleito duas vezes Governador. O filho recém-saído da adolescência é Deputado Federal. A filha do Garotinho também. Pezão foi eleito como poste. Eduardo Cunha "encarna o lado escuro da força". E a intervenção é só na segurança...

As pessoas carregam bandeiras e faixas para as manifestações.

Lotam as ruas. Contrapõem Marielle com Bolsonaro.

Satã toma conta e predomina.

É muito mais fácil encontra-lo nas igrejas e partidos políticos.

Os gestores com cara de vaca, têm mais saúde e longevidade.

E, agora, depois do furação, a tempestade: Temer quer sem candidato.

Gilmar encarna as Bestas do Apocalipse e solta os Cavaleiros do Armagedom…

Nas redes, atira-se para todos os lados: há idiotas para todos os gostos. Da Desembargadora ao policial; do Deputado Espanhol às esquinas da Rua 47.

Tudo anunciado; tudo previsto. Tudo aparentemente incontrolável...

Ah, amadores!

Tudo ainda é muito pouco para acender a espoleta. Desestabilizar e destruir o gordo sistema bancário com seus lucros indecentes. Para deflagrar a Desobediência Civil.

Nem esse brutal assassinato parece ter o poder de inflamar a Nação. Falta o líder que vai incendiar o povo e romper as correntes.

Que ele seja minimamente comprometido com a Ética!

Ou façamos, todos, um enorme Corredor Polonês em outubro.

 

 

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