A vingança do campo

23/03/2018

 

A urbanização brasileira começou em meados dos anos cinquenta, e fez das capitais do sudeste um verdadeiro canteiro de obras das décadas seguintes.

Dizia-se, à época, que Carioca era um estado de espírito, tamanha a quantidade estrangeiros, de nordestinos e outros migrantes que se estabeleciam em castas pela cidade, hierarquizados pelo emprego: da burguesia rural, que ocupava postos nos bancos, no serviço público e nas redações dos jornais, aos mais humildes, que dividiam entre si as portarias de edifícios, os restaurantes, balcões do comércio e a construção civil.

Algumas atividades tinham reserva de domínio étnico, como os botequins dos portugueses e as bancas de revistas dos italianos, pra não falar nas cozinhas, território cativo dos cearenses.

A mesma coisa se repetia em São Paulo, com a fumaça de suas indústrias sinalizando um novo modo de vida, mais iluminado, menos selvagem, mais saudável e muito mais confortável, como um letreiro de boas vindas para baianos dos quatro cantos da terra.

Os retirantes, assim que estabelecidos, remetiam uma parte da renda pro campo, em socorro aos deixados pra trás. Aos poucos, sempre que podiam, traziam um parente, um amigo, ou mesmo um primo distante para ocupar uma vaga no sul maravilha.

Durante a segunda metade do século XX - e até bem pouco tempo, nessas duas décadas passadas -, as notícias que nos chegavam do campo eram notícias esmaecidas pelo distanciamento. Como se fossem histórias de um povo distante, de um tempo imemorável, de um passado esquecido. O Brasil rural virou símbolo do atraso, da dificuldade sistêmica, da desassistência. Tinha cheiro de curral, de galinhas e frutas podres. E aparecia na foto sem os dentes, com chapéu de palha e a barriga inchada de vermes.

Em alguns lugares do sudeste, lá nos andares mais altos dos edifícios de algumas cidades, entre as obras de arte que adornam o viver de banqueiros e capitães de indústria, talvez houvesse quem calculasse como seria melhor se o Brasil progressista e urbano se livrasse de suas mazelas.

Passados sessenta anos, o que vemos são cidades inchadas e super populosas, com problemas impensáveis decorrentes da falta de planejamento, de governos incompetentes e corruptos, de educação seletiva e discriminatória. Meu parâmetro, o Rio de Janeiro que me abrigou com as oportunidades sonhadas pelos que me trouxeram criança, tem coisas ainda piores: lugares de total abandono, violência brutal, desesperança - pura distopia.

Essa não é a realidade apenas das capitais, mas de centenas, talvez milhares de cidades que cresceram desordenadamente com a expulsão do campo, com as hordas de despossuídos sempre atraídas pela perspectiva da sobrevida, da renda robusta, de chances melhores para a prole.

Criaram-se cidades satélites em torno das capitais, verdadeiros dormitórios sem qualquer chance de desenvolvimento sócio-econômico; criaram-se eldorados em torno de complexos produtivos tornados miragem; abriram-se e povoaram-se novas fronteiras onde antes tínhamos deserto de gente…

Hoje o campo se vinga.

A riqueza que geramos - e que não é pouca - está justamente nesse campo desabitado que largamos pra trás.

No campo que produz para exportação os grãos que não darão empregos nas cidades, porque não serão beneficiados pela nossa indústria. Que não serão consumidos pelas bocas famintas que se amontoam nas calçadas à noite, nas favelas e nos lixões.

Plantações e criações tocadas por máquinas, tecnologia e capital transnacionais. E que se plantam, criam e colhem com a ajuda de satélites, chips conectados, sementes e defensivos de altíssima tecnologia produzidos em outras terras: intensos em royalties e outros direitos de propriedade.

As gentes das cidades se alimentam dessa riqueza com volúpia cada vez maior: com taxas sobre os combustíveis e as máquinas; com pedágios caros; rodovias que danificam veículos e alimentam o que resta da indústria de reparação; com ineficiência; com impostos e contribuições as mais variadas; com uma legislação desenhada para beneficiar o Estado e a máquina do Direito.

Mas o campo se vinga em silêncio.

Houve um tempo em que a cidade grande foi parte do sonho. Por isso a terra ficou barata o suficiente para que o Agronegócio crescesse. Hoje, se voltarmos pro campo a pressão fundiária quebraria  o negócio. 

O caminho inverso não é possível. Talvez, por isso, as cidades caminhem tão rapidamente para a ruptura, para a conflagração social, a estagnação e a decadência moral. Facções em guerra, a evasão escolar alimentando a bomba relógio, desemprego em massa, reconversão produtiva.

De longe, bem de longe mesmo, talvez bem ao norte daqui, talvez haja que respire aliviado com essas notícias. Bom, mesmo, seria se o Brasil rural se livrasse de vez de suas mazelas.

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