Marielle Franco: não passarão!

23/03/2018

Na Espanha, nos anos 30 do século 20, travou-se uma batalha entre as forças políticas que defendiam a democracia: os republicanos contra uma oposição fascista liderada pelo militar Francisco Franco, que, ao vencê-los, militarmente apoiado pelo nazifascismo ítalo-germânico, abriu as portas do inferno no que foi a Segunda Guerra Mundial, com todo seu cortejo de horrores. 

Rio de Janeiro, final da segunda década do século 21. Sob uma intervenção federal militar - gesto midiático desesperado de um governo federal que é o mais impopular das democracias do planeta, com a intenção de tentar conter a crise aguda das instituições, simbolizada pelo caos na produção de Segurança Pública -, é assassinada a aguerrida militante dos Direitos Humanos, relatora do acompanhamento da intervenção, vereadora da cidade do Rio, Marielle Franco. 

Sua morte brutal, de uma pessoa que defendia vidas e igualdade de direitos é a tentativa de matar a luta de construção da democracia no Brasil, a possibilidade de uma sociedade mais digna. É a tentativa de matar o direito a sonhar. 

Com características de execução planejada, em um Rio supostamente em processo de estabilização, independentemente da autoria do crime, o que se impõe é a falência total de um sistema de Segurança Pública em que, de forma irracional, se insiste irresponsavelmente em repetir fórmulas de ação que não trazem resultados e só fortalecem a criminalidade, aprofundam a infelicitação da população e desperdiçam-se recursos escassos. 

Cada tiro dado em Marielle Franco nos atinge. Cada tiro coloca em dúvida a possibilidade digna desta sociedade. Cada tiro tenta nos calar em vida. 

Voltando à Espanha, que resistia aos ataques à democracia naqueles dias sombrios, uma carta de um artista dizia: “Nunca pensei que pudéssemos perder a guerra; nunca imaginei, até a última hora, quando tudo já era irremediável”. Nenhuma morte faz sentido. A vida sim. 

Que a morte de Marielle seja o ponto de virada em tempos de Quaresma e de aproximação da Páscoa. Que cada vez mais a vida humana seja motivo de nossa luta. E sua morte possa ter o condão de Renascimento do Rio de Janeiro e do Brasil. Não passarão!

 

Newton Oliveira é Professor de Direito do Mackenzie Rio e ex-subsecretário de Segurança

Publicado originalmente no Jornal do Brasil.

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