Os amigos do Rei

03/04/2018

Nada representa mais as monarquias absolutistas do que a distribuição de benesses do Estado - as Capitanias Hereditárias, os Condados e Ducados em outras culturas, funcionavam como uma espécie de torrão vitalício, uma galinha dos ovos de ouro de que você só precisava cuidar para que piratas não saqueassem, ou amigos mais próximos do Rei não cobiçassem.

A Proclamação da República em 1889 não conseguiu extinguir esse traço despótico da nossa cultura. Pelo contrário. Tratou de repaginar sua aparência, justificar sua prática e tratá-la com naturalidade, como se fosse, mais uma vez, um ato de vontade divina.

E a República de Coalisão, costurada enquanto a Nação pranteava Tancredo Neves por alguns personagens a quem a história ainda fará justiça, foi aperfeiçoando a prática e a tornando mais abrangente. Sarney e Ulysses foram os fundadores e principais beneficiários desse modelo vigente.

As funções de Estado, como Ministros, dirigentes de departamentos, de estatais, simplesmente deixaram de ter relação com o notório saber e passaram, aos poucos, a ser preenchidas por notórios desconhecidos - protégées dos mandatários.

Absurdo dos absurdos, cria-se esses feudos para pacificar os amigos.

Nada é mais emblemático do que os Tribunais de Contas. Todos eles. Uma reserva de mercado do Poder Legislativo tocada em conluio com os governantes de plantão para fiscalizar suas contas.

Mas esse não é o único e nem de longe o pior exemplo. São todos escabrosos.

Juízes e advogados (alguns, inclusive, sem qualquer expressão profissional, como o Dias Toffoli) tornados “Ministros Vitalícios” do STF. Desembargadores nomeados por Governadores.

Por que um governante precisa desse poder?

Para dirigir a Nação, ou para pacificar os poderosos que lhe dão sustentação?

Não há mente que seja tão simplória a ponto de não imaginar como sejam as conversas entre essas autoridades e seus parceiros de patifaria. Mas ouvir de viva voz o presidente do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro falando de seus crimes mexe com as entranhas de qualquer um. Assistir o Paulo Maluf driblando a Lei mais uma vez depois de quatro décadas de impunidade é de vomitar.

Ver esse tal do Kakay - que sustenta o sorriso da foto com a sua capacidade de evitar que seus clientes paguem pelos crimes que cometeram - vir a público para defender cinicamente os seus interesses financeiros sob o manto do bom-mocismo e a guarda dos legítimos interesses da sociedade, me torna menos cristão.

As declarações do Gilmar Mendes me colocam em pecado.

Não é possível rezar pela alma dessa gente enquanto a população de rua aumenta. A legião de desamparados para quem o Brasil não é pai nem padrasto.

Não sei se riria se os assistisse vitimados por sua própria incúria, sofrendo como vítimas de crimes como os que praticaram Pimenta Neves, Roger Abdelmassih.

A política no Brasil está como está porque os partidos se escondem atrás de palavras de ordem, de dísticos coloridos e chavões totalmente desconectados da prática. 

São como os Piratas e Conquistadores de épocas passadas; não lutam por ideologias, pela diminuição das desigualdades, mas pela repartição do butim. Pelo direito de fornicar, reproduzir e manter os seus ducados.

Não há um único político ou partido no Brasil que aposte na diminuição dos privilégios como política pública. Que fale no fortalecimento do Estado como forma de proteger a sociedade desses cupins. Pelo contrário: só o que se vê é uma desavergonhada, indecente e desvelada combinação para continuar saqueando a Nação.

Já passou da hora de levantar a bandeira da Igualdade.

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