Nelson Pereira dos Santos

Eu era bem garoto quando vi Vidas secas, mas me lembro que a história daquela família nordestina que tentava fugir da seca e da extrema miséria me tocou bastante. Logo depois de ter visto o filme, entrei numa livraria e comprei o livro de Graciliano Ramos. Era uma obra do neo-realismo brasileiro, na linha do que De Sica e Rosselini faziam lá na bota, mostrando como a estrutura agrária do Brasil era de uma precariedade desumana. Aquela família devastada pela miséria não abandonava uma certa esperança de alcançar um sitio melhor que tivesse água em abundância e terra fértil para ser cultivada. Baleia, a cachorrinha da família, é o exemplo de fidelidade e de devoção, muito parecido com o cachorro que acompanha o velho Umberto D em sua melancólica jornada.
Nelson roteirizou e dirigiu diversos filmes nos seus quase 65 anos de atividade. Voltou a filmar Graciliano no autobiográfico Memórias do cárcere, filmou Jorge Amado em Jubiabá e Tenda dos milagres e, entre dezenas de acertos, cometeu alguns deslizes como por exemplo A terceira margem do rio no qual não conseguiu passar para a tela toda a emoção poética do conto de Guimarães Rosa.
Outro momento muito especial em sua filmografia foi Como era gostoso o meu francês em que faz uma sátira da relação de índios rivais com seus colonizadores portugueses e franceses.
Nelson trabalhou intensamente com uma galeria de astros de primeira grandeza como Arduino Colassanti, Jece Valadão, Norma Benguel, Adriana Prieto, Grande Otelo, Carlos Vereza, entre outros, e sem favor nenhum, situa-se numa posição de destaque na história do nosso cinema, sobretudo na época que era bem difícil fazer as coisas por aqui.
A última oportunidade que tive de apreciá-lo foi no magnífico documentário A música segundo Tom Jobim, o tipo da obra que é importante manter na estante de qualquer um.
Nelson morreu neste mês de abril no Rio de Janeiro, praticamente ao mesmo tempo em que morria nos Estados Unidos outro grande mestre, Milos Forman. Tomara que eles se encontrem por lá.

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