A vocação turística do Rio


Talvez por influência da celebridade que assaltou o trem pagador inglês, tradicionalmente, o sonho de todo bandido internacional vivido no cinema de Hollywood era fugir para o Rio para gastar a fortuna amealhada em um grande e definitivo golpe. Por determinado ângulo, a propaganda gratuita na tela grande significava orgulho para a acolhedora cidade maravilhosa, bem como moeda forte e divisas para o Brasil.

Já em tempos de Netflix, o mais jovem dos comparsas da quadrilha que invadiu a Casa da Moeda de Madrid, na aventura intitulada La Casa de Papel, adotou a alcunha de Rio. E o moleque, fera em tecnologia de informação, ainda pegava clandestinamente a bela e impulsiva Tóquio. Chupa, São Paulo! - metrópole que reúne a maior parte da colônia japonesa no país.

Se o presente artigo procura focalizar o problema da bandidagem turística por esse prisma, em pleno feriado de São Jorge, é para destacar o aspecto até aqui sempre desprezado no âmbito dos negócios potencialmente promissores para o estado, particularmente espoliado nos tempos de um conhecido dragão da maldade feminina.

Por outro lado, o da lei, a falência do Rio de Janeiro não impede que feriados sejam cada vez mais comemorados. Entretanto, fato é que a propalada vocação turística de nossa capital e interior não está com essa bola toda, e não vai aí nenhuma alusão à tripla negociata da reforma do Maracanã – PAN, Copa e Olimpíadas. A metafórica bola está quicando na grande área, mas a turma do turismo formal peca pela falta de criatividade na exploração de nosso patrimônio histórico marginal.

Para começar a viagem pela imaginação empresarial, os mercados locais de hotéis multiestrelados, restaurantes, pousadas, bares e quiosques serranos e praianos poderiam abraçar a causa para compreender o crescente filão neonarrativo petista, antes que Curitiba, Atibaia ou Guarujá o façam.

Do alto do nosso inequívoco empreendedorismo bandido, poderíamos organizar uma temporada Lava-jato. Ou Car Wash Experience, para aproveitar os frutos da série O Mecanismo, do Padilha do bem.

Afinal de contas superfaturadas, Cabral somou forças com Lula e, ao contrário do sempre ignorante covarde, nosso inesquecível governador não procurava se esconder atrás de amigos guerreiros.

Se Al Capone levou a prisão de Alcatraz a se transformar em um dos mais visitados pontos turísticos da magnífica Califórnia, o que aquela inóspita ilha gelada, ao largo da cidade San Francisco, tem que a tropical e verdejante Mangaratiba de Cabral e Adriana não possa oferecer, uma vez combinada às privilegiadas acomodações de Bangu? O tour serviria tanto ao turista interessado pelos meandros da globalizada Lava-jato quanto ao bandido potencial do exterior, já naturalmente inebriado pela Costa Verde, assim batizada pela sedutora cor do dólar.

Uma das grandes pedidas seriam as cinematográficas viagens de helicóptero, saídas do heliponto localizado na cobertura da sede da Petrobras até o resort dos pombinhos de colarinho branco. O pacote incluiria toda infraestrutura e apoio jurídico para lavagem de dinheiro em joias, relógios, objetos de arte, automóveis e propriedades paradisíacas. Não por acaso, O Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, já fatura com as coleções apreendidas na reserva técnica de Duque, o marchand e galerista do Petrolão.

Seriam organizadas vistas de tirar o fôlego – e a carteira do passageiro - em um trajeto que envolveria o sobrevoo do Outeiro da Glória, Pão de Açúcar, Corcovado, Copacabana, Lagoa, Ipanema, Leblon, São Conrado, Rocinha, Pedra da Gávea, Barra, Recreio, Guaratiba até o aguardado pouso no Complexo Prisional de Bangu, onde uma quentinha do Restaurante Antiquarius seria saboreada na cantina exclusiva.

Sim, com o intuito de reduzir a pena para os dois dígitos, o próprio chefe da quadrilha fluminense poderia receber os viajantes, antes que os participantes da excursão rumassem para a Restinga da Marambaia e Mangaratiba.

Já para o turista comum, petista espontâneo, estudante secundarista, doutrinado universitário ou mercenário mortadela, de ônibus bancado pela CUT, UNE ou UBES, teríamos o Museu do Golpe. A instituição poderia ser patrocinada pelas bicicletas Calói, a melhor em pedaladas, com encenações periódicas da entrega do pré-sal ao capital estrangeiro, tudo a partir das pautas bomba do carioca Cunha. Um espetáculo produzido e encenado em looping pelos revoltados artistas da golpista Globo.

Na volta, ao longo do Arco Metropolitano, o grupo iria até o faraônico Comperj, em Itaboraí. Do alto, os turistas poderiam se deliciar com roubos de carga e arrastões automobilísticos ao vivo por toda rota.

Do Complexo Petroquímico, de fazer corar Ramsés II, o retorno se daria por Niterói, com tiroteios e roubos de celulares, até terminar em uma visita guiada ao Palácio Prisional de Benfica, onde os secretários de Cabral apresentariam suas façanhas interdisciplinares.

O circuito turístico terminaria no Aeroporto Tom Jobim, no Galeão, a famosa rodoviária de quinta, que tanta bossa nova proporcionou aos nossos bandidos.

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