1968, meio século depois

Datas redondas sempre despertaram nas pessoas boas razões para que se pudesse avaliar melhor aquilo que foi fato no passado e hoje é uma lembrança desbotada que pretendemos reavivar. Maio de 1968 faz 50 anos. Parece que todos querem dizer alguma coisa sobre isso. A televisão mostra a tropicália, tão marcante na época com suas novas propostas estéticas que, ao mesmo tempo que contemplavam a busca de uma linguagem universal fortalecia-se com elementos fortemente regionais, macunaímicos até. Lá se vão meros 50 anos. O mundo sacudiu em 68 como palco de uma efervescência de manifestações que marcaram uma época.
Tudo começou em Nanterre, na França e logo depois irradiou-se para os lados do Quartier Latin em Paris com protestos generalizados de estudantes e operários querendo transparência e respostas às suas questões. Era um mundo ainda atarantado pela guerra fria com Nixon no poder na América, Franco na Espanha e De Gaulle na França. Era a velha política com um mundo desejoso de construir uma utopia em que personagens fortes como Che Guevara protagonizassem a cena política. Os jovens queriam ver longe a herança maldita que foi legada pelos seus pais num grito que se tornou universal e repetido muitas vezes: é proibido proibir!
No Brasil a ditadura militar, na época comandada por Costa e Silva, usava de força para calar as manifestações dos jovens o que resultou no emblemático episódio do Calabouço que vitimou o estudante Edson Luis. Ninguém esquece que foi para calar as ruas e a imprensa que terminamos o ano de 1968 dominados pelo arbítrio do AI 5.
Na verdade, a juventude universitária era, na época, adepta a uma esquerda que lhes parecia romper com um capitalismo sem alma e com princípios autoritários velhos e decadentes patrocinados por uma burguesia sectária. Mas, apesar de ser anti-capitalista não havia um alinhamento muito próximo com a nomenclatura soviética que ficou ainda mais desmascarada com a invasão de Praga.
Paris virou o símbolo de uma nova onda política, determinante para uma nova etapa de modernidade que a partir dali seria construída. O cinema francês, reconhecido pelo seu engajamento, já tinha posto sua regra e compasso renovadores bem antes de 68, criando aquilo que seria conhecido como a nouvelle vague. Em 68 propriamente, diante dos fatos que reviraram as ruas, ficou decidido pela turma mais significativa do cinema que seria suspenso o tradicional Festival de Cannes. Não havia clima para festas burguesas num momento em que a sociedade clamava por transformações. Quando Henry Langlois foi demitido da Cinemateca francesa, veteranos do Cahiers como Godard, Truffaut, Rivette e Chabrol juntaram sua indignação com o sangue novo de Claude Berry e Max Ophuls para a partir desse ponto poder, quem sabe, repensar o papel do cinema naquele mundo que tremia.
Curiosamente, tudo o que existe de mais significativo naquilo que podemos chamar de cinema político, como já dissemos no parágrafo anterior, foi realizado antes do foguetório de 68.
Godard, Rivette, Visconti, e todos os europeus que se lançaram num projeto de engajamento social através dos seus filmes já tinham dado seus recados em filmes rodados na década de 50 e 60. A preocupação maior era com a guerra do Vietnã, as atrocidades praticadas por lá pelas tropas americanas, o que acirrava uma forte indignação nos setores mais progressistas da sociedade. E sobre a guerra tão polêmica surgiram alguns filmes memoráveis como “Apocalipse now” de Coppola e “Platoon” de Oliver Stone, ambos focando seus discursos na insanidade daquele conflito.

Mas há muita coisa em sessenta e oito que dá saudades de lembrar. Se o mundo não mudou tanto assim depois que os ânimos se recolheram, o cinema de ficção mudou para sempre com o lançamento de “2001, uma odisseia no espaço” de Stanley Kubrick. Ali tínhamos uma síntese do papel do homem diante dos monólitos e das suas próprias limitações, consistindo na obra máxima da ficção científica filosófica que até hoje figura entre os grandes momentos do cinema universal.

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