Coincidências

Acredito que existe algo mágico nas coincidências. Pode ser tudo um truque, mas isto não diminui em nada a minha fascinação pelo espetáculo.
Do nada, você se lembra de alguém que não encontra há anos. No instante seguinte, chega uma mensagem de WhatsApp (no passado, o telefone fixo tocava...). É aquela pessoa desaparecida, convidando para o casamento, para o aniversário do filho ou apenas dizendo que sente saudade.
Você, que não se atrasa nunca no trabalho, pega um trânsito terrível bem no dia daquela reunião importante. Tortura-se imaginando a explicação inútil que fará ao entrar na sala. Ao chegar, descobre que a reunião foi desmarcada. Problemas na ponte aérea entre São Paulo e Rio.
Um convite para aquele curso espetacular de duas semanas em Nova Iorque durante as suas férias. Tudo de graça. Só precisa pagar a hospedagem. Você sonha acordado com as aulas, os contatos profissionais e, sinceramente, com os musicais e as compras. O problema é que está com pouco dinheiro. Se pagar o hotel, não vai sobrar para mais nada. Viajar assim não tem graça. Na copa do escritório, olha para o café na sua frente e antecipa a fossa pela oportunidade perdida. Um de seus colegas se aproxima. Você finge que não o vê, porque não está com vontade de conversar. Mas ele parece não entender seu estado de espírito. Sem muita paciência, você o escuta perguntar se vai viajar nas férias. Parece provocação. Mas não.
O irmão dele, que mora em Nova Iorque, vem passar quinze dias no Rio, na m-e-s-m-a época do curso. A mulher do seu colega não quer hospedar o cunhado em casa. Será que você poderia emprestar o seu apartamento?
Claro que nem sempre as coincidências são positivas. Praticamente todos os grandes acidentes ocorreram por causa delas. Lembro da cena de “O curioso caso de Benjamin Button”, em que a personagem de Cate Blanchett é atropelada e interrompe promissora carreira de bailarina
porque uma sequência de situações fora do comum fez o motorista de táxi passar perturbado naquela rua, num horário em que não deveria estar lá, e se distrair exatamente no instante em que ela, tão feliz, resolve dançar no meio da rua.
O que torna as coincidências tão especiais não é o efeito que aquele improvável encadeamento de fatos causa no nosso espírito. O encantamento reside na constatação de que as coincidências são inexplicáveis. Como na mágica, se você consegue entender o truque, até pode reconhecer a dificuldade de realização, mas não haverá fascínio.
Seria a coincidência brincadeira de algum deus? Seria o administrador da Matrix embaralhando as cartas? Seria apenas a probabilidade trabalhando num mundo regido pela matemática?
Não procuro uma resposta. Basta saber que as coincidências acontecem. Para mim, elas são a maior prova de que às vezes acreditar é suficiente. Alguns podem até chamar isto de fé. Mas isto pode ser mera coincidência.

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