O castelo, o bambu e a roda


Não deve passar de mil o número de pessoas que, de fato, mandam e desmandam nesse país. Aí já incluídos os muito ricos e os políticos realmente relevantes de Brasília e de alguns poucos Estados. E também já expurgados os inexpressivos, os caídos, e aqueles que só existem para dar um sentido de representatividade e legitimidade ao grupo de cima.

Poderíamos chamar esse poderoso grupo de “palacianos”, já que eles gravitam em torno do poder do Estado, de onde tiram não só o que precisam, mas principalmente, o que querem e o que não querem. É claro que eles se deslocam com grande desenvoltura pelos gabinetes dos Três Poderes, ainda que, algumas vezes, sejam obrigados (ou convenientemente induzidos) a entrar pela garagem.

Encastelados em suas torres oníricas e ocupados com a manutenção de seus territórios, os poderosos acabam perdendo a capacidade de se relacionar com o cotidiano da Nação, sendo obrigados a empregar uma grande massa de acólitos, que se constitui na base de todo o seu poder: o primeiro, o segundo, o terceiro escalão, os encarregados, os doleiros e os operadores…

As ações, ambições, associações e traições realizadas dentro desse grupo são as únicas que de fato conseguem modificar alguma coisa na estrutura de mando do País. E sempre são tratadas pelos perdedores como “golpe”. Todo o resto, salvo em caso de uma Revolução Popular (expressão equivocada, porque sempre haverá um grupo dissidente da camada mais alta liderando as massas), não passa de insubordinação e desordem.

Pelo regimento aprovado em condomínio, quando um Procurador Geral da República representa contra um dos títeres do Estado, ele tem a legitimidade para por em cheque o poder e a utilidade do grupo ameaçado, pondo em marcha uma perigosa dança das cadeiras, e abalando as estruturas do poder efêmero, assentadas em centenas de milhares de sinecuras sustentadas com o Tesouro.

Por isso, as flechadas não foram suficientes para jogar ao chão um governo que ruiu na calada da noite a partir dos porões do palácio. Não o queriam, de fato, a maioria do poderoso grupo de controle, e por isso, não o permitiram os escalões inferiores.

E assim o governo se reestruturou para viver sua fábula: “O temeroso mundo do faz de conta que tem que manter isso aí, viu”.

Entre um soluço e outro, sonhavam os encastelados com a transição democrática na terra do faz de conta. Uma reforma adiada, uma intervenção de mentirinha, uma candidatura, talvez… E trá-lá-lá! Não tem bambu que dê pro gasto! diz a empáfia Marunita - não, obviamente, da seita religiosa da Antioquia, mas dos acólitos do toma lá, dá cá brasiliensis.

Por isso, celebremos o Outono da Roda!

Não traz o alento de ser o indício de melhora, nem nos permite sonhar com a uma Marianne desfilando uma nova bandeira. Mas a greve dos caminhoneiros nesta semana de maio, deflagrada novamente por pouco mais que vinte centavos, joga no chão o governo e faz ajoelhar a economia. Por isso, será sempre lembrado como o Outono do Temerário.

A “mídia golpista” já começa a identificar a má-fé dos grevistas; a Justiça impõe o uso da forca; e não tardarão os black-blocs de 2018, que contaminarão a legitimidade e as verdades contidas na greve dos caminhoneiros.

O que o bambu não fez, a roda o fará: o grupo de cima vai ter que rebolar pra se manter onde está até 31 de dezembro. E vão ter que reinventar a roda (pra não perder a piada) para não serem varridos pelos ventos de outubro. Quem viver, verá!

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