Isso não é uma greve

29/05/2018

E esse, pode até ter sido, mas já não é um caminhoneiro.

 

O quase colapso provocado pela greve dos caminhoneiros começa a produzir variadas aberrações, como os pedidos de intervenção militar e a urgente necessidade de encontrar um bode.

 

O único responsável por essa greve é o governo. E não se entenda governo como o Presidente da República, mas toda a classe política que lhe dá sustentação: o congresso fraco e oportunista, o ministério de negociantes e balconistas, governadores pífios…

 

O fracasso de toda a classe política, sem exceção, na condução do problema, começa a ser varrido pra baixo do tapete com alegações sub-reptícias, seja exibindo a população como refém de um movimento reivindicatório insaciável, seja plantando bruxas e causas obscuras nos milhares de focos de resistência espalhados pelo país.

 

Subitamente começam a discutir quem suporta o movimento, a ilegalidade do envolvimento dos empresários, a pauta ilegítima de reivindicações. Por quê será que os bancos nunca apareceram nas greves dos bancários? Nem os grupos de interesse nas outras greves intermináveis?

 

Eis que surge na TV o senhor José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (na foto), dizendo o que se esperava que dissesse: “pessoas que querem derrubar o governo” estão controlando o movimento.

 

Que me perdoe este senhor - não conheço sua história. Mas sua imagem de terno e gravata vermelha atrás de microfones e câmeras de TV, me lembra a reflexão de Michel Foucault sobre o famoso quadro de Magritte, Isso não é um cachimbo - "Ceci n'est pas une pipe”.

 

Falta similitude e ao Sr. José Lopes, como falta a todos aqueles que se distanciaram da profissão para se sentarem nas confortáveis cadeiras de sindicalistas e “lideres” de classe, para dizer o que quer que seja sobre este movimento.

 

Outra aberração é querer atribuir a causa do movimento aos aumentos do petróleo.

 

As estradas brasileiras estão em petição de miséria: são pródigas na criação de buracos, postos de pedágio e acidentes fatais. O roubo de carga - e de caminhões - cresce mais que o PIB da China e o preço do barril de petróleo. As seguradoras encarecem as apólices; os bancos não diminuem os juros; veículos e autopeças sobem mais que a inflação; planos de saúde sobem mais que a inflação. A energia na casa dos caminhoneiros sobe quando chove muito e quando chove pouco. E o frete só abaixa, premido pela interminável recessão econômica.

 

Os caras rodam 12, 14, 16 horas por dia, fazendo malabarismo pra trocar um pneu, pra receber um frete, pra não ser assaltado, pra não morrer no assalto.

 

Enquanto isso o Congresso se move nas sombras pra evitar a Justiça. Discute a própria sobrevivência como se dela dependesse a Nação. O presidente vive uma paródia (ruim) de Hamlet, assombrado pelos porões do palácio que lhe impõem a dúvida: ser ou não ser candidato?

 

Da Legião Urbana à legião de caminhoneiros, a pergunta que importa é essa: que país é esse?

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