A banalização da ingratidão

 

O Brasil de todos os males é a bola da vez, nesta temporada de fugas para Miami e de exílio à amada terrinha Portugal.


Falar mal do Brasil virou esporte nacional: do sonho ufanista do Brasil do futuro (que nunca se realiza como no mito de Sísifo), o brasileiro acorda para nova epidemia. Os sintomas: decepção, desencanto, descrença, desesperança. O brasileiro perde o sorriso, o brasileiro perde a alegria.


Esta dificuldade de ser brasileiro, de aceitar verdadeiramente o Brasil como pátria e Nação, não é nova. Atribuem-na, em parte, ao nosso processo civilizatório, meio espoliado, meio colonizado, meio sem dono. Nesta terra de índio sem índio, o problema é sempre do outro.


Hegel já dizia que povo é a parcela da Nação que não sabe o que quer.


Os males do Brasil eram a saúva, pouca saúde e a inflação; agora a insegurança, pouca saúde, pouca educação e a corrupção. O que fizemos com o nosso país neste vôo da galinha? Então o brasileiro, povo sofrido, não está acostumado ao sofrimento? O brasileiro, povo resistente, não tem resiliência, força para superar a adversidade?


O Brasil, terra abundante, litoral imenso, enorme potencial e com inúmeros problemas a enfrentar, está acostumado a que o brasileiro lhe dê as costas. O brasileiro vê o país ser saqueado como assiste a um reality show de mau gosto. O brasileiro do “meu pirão primeiro” e do “todo mundo é ladrão” vai do otimismo ilusório ao pessimismo amargo com a naturalidade de quem sobe e desce de elevador.


Dizem ser o patriotismo a virtude dos viciosos ou o último refúgio dos canalhas, mas um pouco de brio cívico não nos fará mal neste instante global de nacionalismos exacerbados, que lembram o fascismo e seu filhote, o nazismo. O momento exige nações fortes, com projetos de desenvolvimento firmes. Não é do brasileiro fugir dos problemas que criou; ao contrário, o brasileiro deve encará-los: afinal, o brasileiro não foge à luta.


O Brasil é o Brasil. Não é uma seleção de futebol. Não é o balcão de negócios da política.


A “venezuelização” não é um risco brasileiro: o Brasil não é a Venezuela.


A “argentinização” peronista não é um risco brasileiro: o Brasil não é a Argentina.


O Brasil tem problemas e desafios iguais a muitos países grandes, como os Estados Unidos, a China, a Rússia e a Índia, por exemplo. E tem problemas muito parecidos aos de muitos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. O Brasil está jogando com o baralho viciado da má
política: é hora de diálogo, negociação e pacto. É hora de trocar o baralho, descartando as ambições oportunistas e messiânicas de loterias ilusórias.


Os desafios urgentes do Brasil são: crescer, repartir e educar. O Brasil deve crescer um Uruguai a cada ano, um Chile a cada cinco e uma Argentina a cada 10 anos, apenas para gerar os empregos dos jovens que chegam ao mercado de trabalho. Já perdemos muito tempo: é hora de deixar as incertezas para trás.


O Brasil não tem culpa. O Brasil é o Brasil. O Brasil é maior do que o brasileiro. A culpa é nossa: dos brasileiros.

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