Múmias: agora é cinza

 

Lembro quando, em 1995, choveu na múmia, decerto acostumada ao deserto. A reação ao faraônico episódio causou desconforto entre os colegas não embalsamados do governo FHC. Foi acertado um patrocínio expedito na Petrobras para impedir que outra tempestade, em conluio com os cupins, pudesse derrotar o telhado e voltar a atingir Hori, já então com mais de 2000 anos. Na ocasião, muito se falou a respeito de como se conservar a múmia, em umidade ideal, etc, etc. Entretanto, precisávamos de andaimes, escadas e proteção, inclusive contra o IPHAN, muitas vezes inimigo do patrimônio histórico por preciosismos imbecis, como se os cupins cariocas respeitassem o rococó, o neoclássico francês ou o barroco mineiro. 

 

Imagino, hoje, as discussões no âmbito da UFRJ, mais politizada que nunca, responsável pelo Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Reitoria incendiada que o diga, Canecão abandonado que o reforce. Saudades das chuvas na Quinta. Talvez as goteiras fizessem o papel dos sprinklers - inexistentes ou preguiçosos. Ou aumentassem a umidade reinante nas madeiras imperiais. 

 

As muitas escadas Magirus que faltaram ao socorro retratam bem como estamos.  A destruição completa do Museu é uma trágica metáfora da memória do povo brasileiro. Agora é cinza. Tudo acabado e nada mais. De pé, apenas as mesmas múmias embalsamadas com terno e gravata.

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