Uma noite no museu: a morte e a morte de Luzia

Perda irreparável, tragédia incalculável, comoção cultural bradam aos ventos pelas ventas as autoridades politicantes que, de tempos a esta parte, tomaram, como Nero, o gosto de atear fogo na responsabilidade pública.

 

Em nome do rigor orçamentário, continuam a irrigar federações e clubes de futebol com polpudas verbas das loterias e sequer se lembram de botar umas minguadas fichas em favor da Loto Cultural. Desvios arrastam as águas dos recursos da Lei Rouanet para projetos carimbados.

 

Há 40 anos, numa noite trágica, ardia o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e, com ele, telas de Picasso, Miró, Matisse, Dali e Portinari e todas as 80 obras da fase construtivista do gênio uruguaio Joaquín Torres-García, então em exposição. Relatos dão conta de que o fogo teria começado no segundo andar, sendo arrastado pelo vento que soprava da baía da Guanabara. Bombeiros chegaram atrasados com dois carros em sirenes: um com defeito mecânico, outro com a mangueira furada. A falta d’água deu cabo do resto. O dano foi irreparável.

 

Há quase três anos, queimava o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O fogo começou no primeiro andar e, rapidamente, chegou ao telhado, ameaçando a vizinha Estação da Luz, destruída anos antes por “pavoroso incêndio que, como um braseiro, iluminou toda a cidade”. Era 1946, mês de novembro. O relógio no alto da torre parou às 4h10. A água era escassa; os prejuízos incalculáveis.

 

Há cinco anos, o fogo destruía a exposição de pesquisas do paleontólogo e naturalista dinamarquês Peter Lund sobre a Era do Pleistoceno e a Vida no Cerrado, no Museu de Ciências Naturais da PUC de Minas. 

 

Na noite deste domingo, ardeu o Museu do Palácio de São Cristóvão, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Todos sabem o que se perdeu: documentos, livros, pergaminhos, coleções, enciclopédias, murais, fósseis, sarcófagos, tronos, mobiliário imperial. Só não se perdeu a vergonha.

 

O luto é da Nação: morre aos 200 anos o Museu Nacional do Rio de Janeiro e, com ele, morre outra vez Luzia, agora aos 12 mil anos. A justiça falha, mas não tarda.

 

Nossos sentimentos.

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