A cultura do atraso

06/09/2018

É difícil de entender. Mas é mais difícil, ainda, explicar.

 

Nós, brasileiros, cultuamos o atraso naturalmente. Não importa que seja uma herança nativa - pré-colombiana, como costumavam dizer os catequizadores -, ou ibérica, como costumam contrapor os que chegaram atrasados ao banquete - os anglo-saxões, por assim dizer.

 

Faz parte da nossa cultura buscar os atalhos. Os caminhos fáceis. O acostamento, que se estende vazio e convidativo às nossas urgências, ou a porta da garagem, onde a segurança foi desativada.

 

Essa não é uma definição, mas uma concepção do antiético. Daqueles que se comportam desconsiderando a existência do outro. Que juram fazer parte da sociedade perfeita. 

 

A terra do terceiro milênio é recheada desses filhos da puta. E, com certeza, isso não é privilégio nosso. Mas somos, seguramente, a maior Nação de iniciados nessa seita.

 

Professamos essa fé no cotidiano: dos atos mais frugais, como furar a fila de pais na saída da escola, até atitudes mais elaboradas, como o aprimoramento da desfaçatez, tornado requisito essencial para o exercício da vida pública.

 

Cheguei a essa conclusão tardiamente na vida.

 

Exatamente aos sessenta e cinco anos, há pouco concluídos, e curiosamente observando as placas de velocidade numa rodovia estadual, na interior do Rio de Janeiro. Uma rodovia essencialmente comum, cortando vilarejos que brotaram à sua margem, enquanto liga a capital às cidades que lhes deram origem.

 

Do nada, no meio de uma reta, em cujo cenário nada mudou, a velocidade passa de 80 km por hora para 40, 60 ou 50. De certo deve ter uma lógica, mas é muito complexa para o nosso nível.

 

Não é a situação de risco que determina a redução e a ordem. É o potencial de arrecadação que representa. Passar de 60 pra 40, numa descida longa, não é consequência do risco de capotamento na curva adiante. Ou cuidado extremo com a natureza, protegendo eventuais Tamanduás Bandeira, ou Bichos-Preguiça cruzando a rodovia… Trata-se de mera sanha arrecadadora misturada com preguiça.

 

Em qualquer lugar do mundo, inclusive em Terra-Brasilis, se uma curva é perigosa, investimentos serão feitos para torná-la mais seguras. Se há adensamento urbano com riscos de atropelamentos, providências serão tomadas para evitá-las, como sinais de trânsito…

 

Todos sabem que multas enchem as burras de quem as explora: tanto o administrador público quanto o concessionário do serviço. Mas isso seria apequenar a cultura do atraso.

 

Cultura do atraso é, antes de mais nada, um posicionamento político. Uma forma de enxergar o problema, e propor soluções.

 

Senão vejamos: é verdade que instalar essas arapucas tem um efeito educacional? Evita alguns tipos de acidentes graves? Também pode, ainda, render uns trocados para a administração local? Inegável!

 

Mas essa é a melhor maneira de enfrentar o problema? O conjunto de resultados que traz é o mais satisfatório?

 

São inúmeros os aspectos que dizem não a essa questão: 1. não é a melhor maneira de evitar acidentes; 2. não é a mais econômica; traz consequências danosas ao consumo de combustível;  3. trava a economia das cidades conectadas, aumentando o custo e o tempo de percurso… 

 

Poderíamos falar, também, é claro, na oportunidade que cria para a corrupção dos agentes do poder concedente. Dos desvios de recursos privados para manutenção de uma máquina ineficiente…

 

Não é um caso isolado. Estão aí as tomadas de três pinos, que não aterram as redes elétricas; As auto-vistorias, que não impedem os acidentes; a Constituição da República, totalmente emendada pelos “legisladores sem voto”, os togados do Supremo; a política de cotas inclusivas; os cartórios de reconhecimento de firma…

 

Este é o conceito determinante da cultura do atraso: não importam as consequências, não importa a racionalidade; Se atender ao “meu propósito”, dane-se o resto! Parece maldição. Ou praga de fada madrinha.

 

Vamos denunciar isso juntos. Quem sabe, um dia, quebramos o encanto?

 

 

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