A ideologia da urna

19/09/2018

Curiosa polissemia. Urna dá nome ao lugar onde se enterra o passado - mortos, cinzas etc. - e, justamente por isso, também define o lugar onde se depositam as esperanças: o porvir, os votos, por assim dizer.

Coube ao Brasil, país notável pelas tecnologias do campo, mas não no campo da tecnologia, a proeza de fundir esses significados.

Largamos na frente e criamos uma caixa preta chamada Urna Eletrônica. Totalmente blindada a críticas. Imexível como uma vestal. E venerada por todos a quem serve, lá pelos altos, em suas aparições sazonais.

Para os que a defendem, ela cumpre exatamente o papel de enterrar o passado e guardar a vontade do povo. Para os céticos, ela faz justamente o inverso: enterra as esperanças e revigora o passado.

Não importa as vozes que se levantam. Não importa a forma que tomem - se transformadas em Lei e promulgada pelo Congresso sob pressão popular, ou se oriundas de meras lamúrias da sociedade, reverberadas aqui e acolá, em posts não lidos como este mesmo. Nossas Urnas Eletrônicas chegaram para ficar.

Elas não resistem a um raciocínio lógico: os sistemas mais seguros do mundo (a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, por exemplo, sem falar no sistema bancário e no Pentágono) não conseguem blindar totalmente os seus dados. Por que não vendemos essa tecnologia fantástica que nos arrancaria da miséria?

Não se discute se as urnas são ou não seguras. Como qualquer caixinha blindada, ela deve ser capaz de guardar lá dentro o que lá se colocou. Mas, a partir do momento que ela se conecta com o mundo exterior, seja para alimentar seu funcionamento com energia, seja para imprimir ou transmitir seus boletins, ela já deixou de ser segura.

Assim como não há segredo de duas pessoas, não há (ainda), sistema de transmissão de dados que seja 100% à prova de contaminação. Basta que alguém tenha os códigos…

Agora se reacende a polêmica, que um dia já foi causa de Leonel Brizola no famoso caso Proconsult.

Subitamente transformada em questão partidária e, por isso mesmo, ganhando outros contornos para além da realidade. Entrou no campo ideológico, e lá vai desempenhar seus papéis com todas as sombras de dúvidas.

Afinal, elas enterram o passado ou as esperanças?

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