O mito do Eldorado

Não foi a eleição da TV, das pesquisas eleitoreiras e da propaganda dos marqueteiros: a retórica foi baixa, de baixo nível também a oratória: entre agressões e muita palmatória, pouco se ouviu de planos, projetos e sonhos.
Pelos rosnares ranzinzas, tampouco foi a eleição da verdade e da informação. Nem da amizade democrática, nem da camaradagem política: prevaleceu a narrativa midiática irracional das redes anti-sociais, terra de ninguém onde ninguém parece ter razão.
Os velhos políticos, esses foram enterrados com a velha política, a mesma que eles mesmos, travestidos de “Justos Veríssimos”, cuidaram de jogar na lata do lixo republicano com a ambição obscena de predadores que, ao encher suas malas de dinheiro, enchiam a nação de vergonha.
Não foi também a eleição da ideologia: o pouco que restou dos campos ideológicos está por aí perdido, sofrendo a síndrome catatônica do soldado japonês, entre apoios críticos não escondem ambições e mãos lavadas que não escondem a sujeira.
Falharam igualmente os cientistas políticos acostumados a ler a sociedade de camarote; parece que desta vez a análise da fadiga do poder vai ser buscada nos divãs dos psicanalistas sociais, antropólogos do comportamento humano. Não foi a eleição da razão e, sim, do instinto.
O eleitor deu seu recado de desalento: parece estar de saco cheio, sem segurança, sem trabalho e sem sonho. Cansado de ser enganado. Muitos sequer foram votar; outros, também muitos, votaram nulo ou branco. Fenômeno novo na corrida eleitoral, chegaram ao final os dois campos mais polarizados, justamente os que carregavam maior rejeição. E, na eleição dos rejeitados, quem prometeu o mínimo, o básico, o feijão com arroz, levou.
E assim a democracia brasileira renova a lição da jabuticaba: o Brasil, que foi o primeiro país a eleger um operário Presidente, elege agora um capitão pelo voto. O capitão diz ter sido despertado para a missão difícil, ainda jovem, embrenhando-se nas trilhas das matas fechadas de Eldorado, no vale do Ribeira paulista. Agora, quando tenta reconstruir os caminhos do Brasil, longe dos labirintos de Brasília, é bom que não se esqueça de que em Eldorado fica a Caverna do Diabo. E não se sabe se há posto Ipiranga por perto.

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