Buracos de minhoca

 

 

 

 

 

Procurando uma conta na pasta que carrego todo dia entre a casa e o trabalho, me deparo com um amarelado Segundo Caderno de O Globo. Guardei aquele pedaço de jornal amassado por causa da resenha sobre o único romance do autor teatral e roteirista de cinema Sam Shepard. O livro – publicado meses antes de sua morte – pareceu-me interessante. Mas o que me encantou foi o trecho final do texto do crítico literário Victor da Rosa (não sei se retirado ou inspirado no livro):

 

“Como o vento que entra pela janela de um trailer parado no meio do deserto, as imagens do passado trazem alguma orientação e certa beleza, mas sobretudo muita poeira.” 

 

Ao reler aquelas palavras, percebi como o passado vem me surpreendendo nos últimos tempos. Não falo das lembranças adormecidas. Aquelas que, reanimadas, voltam com detalhes, cores, cheiros e uma quase euforia por redescobrir a sua história.

 

A surpresa vem de pequenas lembranças que... não existem. Uma foto minha num lugar que nunca visitei. Outra ao lado de pessoas que não reconheço. A dedicatória de uma amiga no livro de Sartre que eu tinha certeza absoluta de ter comprado para me dar de presente. E-mails que enviei sobre assuntos que nunca imaginei ter tratado – mas em que reconheço meu estilo e até me orgulho com a lógica dos argumentos.

 

Não se trata de tentar negar o passado. São detalhes que se encaixam perfeitamente nas minhas lembranças, digamos assim, verdadeiras. Reconheço a lógica, tudo faz muito sentido. A sensação, porém, é de viver aquilo pela primeira vez. Um passado que nunca aconteceu.

 

Estes vazios na memória podem ser um tanto perturbadores. Mas não chegam a dar medo. Se é verdade que exigem um ou outro ajuste no passado, também reforçam as lembranças realmente importantes. 

 

Gosto de pensar neles como buracos de minhoca de quem tem algumas décadas de estrada e dificuldade para guardar tudo o que viveu. Se os buracos de minhoca da Física seriam atalhos para cruzar o Universo, esses buracos de minhoca da memória funcionam não apenas como rewind de um filme em que, distraídos, perdemos uma parte. Mesmo incontroláveis, eles renovam a nossa esperança. Afinal, se nem o passado é imutável, como podemos imaginar que algo pode ser inexorável no presente e, principalmente, no futuro? 

 

 

 

 

 

 

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