Galo da Madrugada

Confesso que me surpreendi com o rancor matinal de Márcia:
- Vou matar esse galo!
Ainda zonzo diante da luta entre o despertador do celular e o resto de sono, demorei para entender sobre o que minha esposa falava. Ainda que me sentisse aliviado por não ser o objeto daquele desejo assassino. Foi quando ouvi um co-co-ri-có alto e claro. Parecia a trilha sonora do meu sonho.
- De novo! Começou antes das três da manhã.
O segundo co-co-ri-có já me pegou acordado. O pensamento mais claro me trouxe a lembrança de algo me incomodando durante a noite. Meu sono é leve. Porém, muitas vezes tenho dificuldade de entender o que interrompeu meu descanso. Tinha sido o galo.
Eu desconhecia até aquele momento, mas um galo – vindo de ninguém sabe onde – havia escolhido o jardim do edifício como seu novo lar. As tentativas dos empregados do condomínio de espantar o bicho tinham sido um total fracasso. O galo parecia ter gostado do ambiente bem tratado, apesar da solidão. Ouvindo-o cantar alto, quase sem parar, tive a certeza de que estava bem à vontade.
- Vou reforçar com os rapazes do prédio. Acho que faltou vontade para mandar esse galo embora!
Márcia mantinha a sua ira sagrada contra as forças da natureza. Ao chegarmos na garagem para pegarmos o carro e seguirmos para o trabalho, ouvimos mais um co-co-ri-có bem de perto. Aquilo parecia provocação!
Porém, minha esposa e meus filhos correram em direção à abertura da garagem que dava diretamente para o jardim, alguns andares abaixo.
- Mãe, olha o galo bem ali. É grande, meio dourado – comentou Dudu.
Fui conferir as palavras de meu filho e o galo estava lá, a poucos metros, empoleirado num pé de jasmim. Era impossível negar sua imponência e, até onde pude notar, uma certa marra de dono do pedaço. Aquela cantoria incômoda ganhara uma cara, ou melhor, penas, crista e bico...
Na saída, minha esposa chamou o porteiro pela janela do carro, dizendo, meio a sério e meio de brincadeira, que precisavam dar um jeito naquele galo. Coitado desse bicho, acabou a vida boa, pensei.
Na minha volta, ao estacionar, sou recebido por um potente co-co-ri-có. Não apenas continuava no jardim. Ele fazia questão de, já no começo da noite, demonstrar toda a sua energia. Chego em casa e pergunto à Márcia o que houve, por que o galo continuava no jardim. Estranho o seu tom resignado.

- Os rapazes não conseguiram pegá-lo. Ele é muito rápido. A única coisa que conseguiram, depois de muito tempo, foi fazer com que ele saísse do jardim por uma fresta na cerca. Mas, assim que se afastaram, ele voou e entrou por outro lado. Nem adianta tapar o buraco.
Estava digerindo o que significava aquela resposta, quando Catarina se aproxima e entrega a verdade.
- Mamãe disse que, como o galo não quer ir embora, a solução vai ser construir um lugar para ele no jardim e colocar milho para o galo não passar fome. E também comprar uma galinha, para ele não ficar sozinho.
Desisti de perguntar como ficaríamos com as cantorias nas madrugadas. Percebi que, enquanto quiser, o galo irá desfrutar do jardim. Se desaparecer um dia, tenho certeza que todos sentirão falta.
É muito mais fácil odiar aquele ou aquilo que não se conhece.

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