Nem os trens andam nos trilhos

07/04/2019

 

Um dos maiores clássicos do cinema americano, o filme Matar ou Morrer (High Noon, no original),  onde o Xerife interpretado por Gary Cooper vive o dilema entre fugir ou enfrentar a morte iminente, representada pela chegada de um pistoleiro sedento de vingança no trem de meio dia, jamais poderia ser filmado no Brasil. Não porque nos faltem histórias de homicídios e homicidas, mas simplesmente porque o trem de meio dia não consegue chegar no horário, nem por obra de ficção.

 

Chega a ser surpreendente a precisão dos trens em outros países. E o que mais impressiona não é que eles saiam sem atraso em horários quebrados, coisas como 12h52m; 09h04m… Impressionante, mesmo, é que eles chegam nas estações no exato minuto previsto. Em tantas quantas forem, até o ponto final.

 

Isso não deveria impressionar a ninguém. Afinal, os trilhos são imóveis; não estão sujeitos a engarrafamentos; as distâncias são fixas e conhecidas; a movimentação de passageiros é previsível… De tão simples, chega a ser irritante.

 

Mas os nossos trens nunca andaram nos trilhos. Desde o século passado eles são motivo de chacota, com marchinhas e modinhas dedicadas à sua imprecisão. O que é de se estranhar mais, já que o Brasil abandonou os trens desde meados do século XX, é que o metrô siga por esse caminho ainda nos dias de hoje, a despeito de toda a tecnologia que já nos permite até a sair do sistema solar. Não há um único trem no metrô do Rio que deslize com pontualidade.

 

Pensei que fosse privilégio da ginga carioca. Da falta de comprometimento que deriva da malemolência, da intimidade com o poder - resquício dos tempos do Império, porque o poder, hoje, no Rio, se exerce nos guetos. Engano. Segundo o UOL, o metrô de São Paulo acumulava, nesta primeira semana de abril, mais de 50 horas de atrasos.

 

Nossa capacidade de desmoralizar coisas elementares é surpreendente. Ela não se restringe às leis da física. Quando se trata de “dar um jeitinho”, nós somos o povo mais engenhoso do planeta. Já tínhamos assistido ao jeito Gilmar Mendes de agir no julgamento da chapa Dilma / Temer, aquele que foi encerrado sem punição por excesso de provas. Também assistimos ao jeito Lewandowski / Renan Calheiros de reinterpretar a Constituição, garantindo direitos políticos a uma presidente apeada do poder. Não é pouca porcaria: é o achincalhamento conjunto do Judiciário e do Legislativo.

 

Nada para em pé no Brasil. Nem as instituições mais sólidas, como a Democracia, o governo do povo pelo povo, através do voto. Nós inventamos o voto qualificado dos “doadores de campanha”, esses vestais que gostam de fazer benevolências anônimas e morrem de medo de serem identificados e associados com seus apadrinhados. Acabamos de estender o guarda-chuva da Justiça Eleitoral para todo tipo de crime comum. A senha para a impunidade é que haja um partido político envolvido.

 

E para provar que tudo sempre pode piorar, nós desmoralizamos a História. Essa disciplina que se constrói com o estudo de fatos e documentos, acaba de ser acochambrada para nos ensinar que o Golpe de 1964 não foi Golpe.

 

Do jeito que vamos, só não piora se formos de trem. Afinal, aqui no Brasil, ele não tem hora nem pra sair…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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