O jornalismo na era da hipermodernidade: tirando leite de pedras

13/04/2019

 

 

 

 

 

O jornalismo sempre se alimentou da curiosidade humana, daquela compulsão pelo saber que, em última instância, nos faz olhar pela janela se ouvimos tiros, ou passar devagar - e olhando - pelos acidentes, em busca das tragédias que aos outros sucedem.

 

A imagem clássica do cinema, de garotos correndo pelas ruas de madrugada vendendo as edições extras de jornais, costumam estar associadas ao sucesso de repórteres e jornalistas que tem “faro pela notícia”, ou a escândalos envolvendo políticos e celebridades. O que elas pouco revelam é como esses “furos”, ou tragédias trazidas a público, engordavam o caixa de corporações jornalísticas, e alavancavam o cacife político de seus empresários. Estão aí Assis Chateaubriand, Adolpho Bloch, Victor Civita e Roberto Marinho (para ficar só com os mortos) como os Príncipes de nossa República.

 

Mas, assim como os pilares da igreja, nada é eterno. Nem mesmo para instituições tão poderosas. O mundo mudou e o jornalismo parece ainda não ter absorvido o golpe da hipermodernidade. A grande imprensa, justo essa que se alimenta(va) das grandes tiragens, resiste bravamente à realidade dos fatos, mantendo onerosas e minguadas edições impressas, apenas como marco de ocupação um terreno que gostariam de manter, mas que veem cada vez mais distante de sua realidade. Quem, em sã consciência, corre às bancas para buscar ou atualizar informações nos dias de hoje?

 

Por outro lado, o jornalismo televisivo, ou mesmo as edições digitais dessas organizações jornalísticas, também parecem perdidas diante do fenômeno da hipermodernidade: de concreto, o que vemos é um reducionismo da linguagem. Estão transformando qualquer informação em uma foto-legenda, cheias de impressões pessoais e mal formuladas ou grosseiramente embasadas. O que se vê, na maioria das vezes, é uma tentativa de promover a hiperconectividade através de longos e tortuosos comentários com fontes totalmente desconhecidas, alçadas ao estrelato por títulos de especialização vagos e difusos.

 

Neste cenário, cada pequena tragédia é transformada no assunto do dia, e explorada incessante e despudoradamente enquanto alguém estiver assistindo. É como se gritassem Extra! pra qualquer coisa.

 

A espetacularização da tragédia se tornou a grande regra do jornalismo. Apenas nesta segunda semana de abril de 2019, tivemos três dias inteiramente dedicados às enchentes do Rio, e agora passamos para o segundo dia do desabamento de dois prédios numa comunidade da zona oeste. É como se passássemos pelo mesmo atropelamento duzentas vezes, e sempre dizendo: agora deixe eu ver daquele outro lado…

 

A imprensa está se transformado numa doutrinadora da “cultura big-brother”, desviando a natural curiosidade humana para o pantanoso terreno da bisbilhotice, da consternação, da histeria coletiva. E o povo é chamado a participar, a chorar diante das câmaras, a dar opiniões…

 

Em nome da audiência, os fatos jornalísticos estão sendo explorados além do limite. E as informações do cotidiano, especialmente aquelas que deveriam manter a população ao par do que interfere na sociedade, são simplesmente relegadas, ou obliteradas, porque não têm a capacidade de chocar e se tornar espetáculo.

 

Estamos vivendo a época em que as pedras precisam dar leite. Afinal, o show deve continuar.

 

 

 

 

 

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