A cadeira ao lado

Estava eu lépido e fagueiro, em raro estado de bom humor numa poltrona leito-cama da viação Águia Branca, rumo a Sampa, quando repentinamente, no último minuto antes da partida, o auxiliar do motorista adentra o salão com uma velhinha que não se aguentava de pé.

Um furdunço só, a velhinha vinha sendo arrastada pelo auxiliar, e adivinhe: qual única poltrona possível?

Lógico, a do meu lado.

Mas, para minha sorte ou azar, a velhinha não consegue passar no corredor...

Na poltrona da frente estão duas trans trabalhadas em anos de silicone. Eis que o auxiliar do motorista tem a brilhante ideia de perguntar a uma das "moças" se uma não poderia trocar de lugar com a velhinha...

Fui logo pensando: vou matar esse filho da puta!...

Fez-se um silêncio pesado no ônibus. Pra mim durou a eternidade..

A trans mais dada lançou um olhar comprido e pidão na minha direção, quando finalmente a velhinha conseguiu passar. Deus ouviu minhas preces....

Fiquei pensando: nada contra as meninas da poltrona em frente, mas bem podiam ser duas genetic girls.

Já pensou seis horas com uma boneca deitada do meu lado?

E se encontro um amigo na parada do ônibus pro lanche? Como explicar?

Nessas horas aparece todo mundo....a tua sogra, o marido da tua cunhada que te odeia, e aquele amigo de infância que vc nunca mais viu....
Em questão de minutos passei a adorar a velhinha.,.. Viajou imóvel ao meu lado, tossindo desesperadamente e me assombrando com a engenharia que seria necessária se ela resolvesse fazer xixi. 
Pensando bem, poderia ter sido pior... ainda bem que não foi.
Era véspera do dia dos namorados...

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