Os advogados vão ao cinema

 

Na mesma linha de Os grandes julgamentos da história, lançado no ano passado pela Nova Fronteira, o mesmo José Roberto Castro Neves, um expoente do saber jurídico, organiza uma nova compilação de ensaios intitulado Os advogados vão ao cinema.


O livro de quase 700 páginas traz 39 ensaios críticos sobre filmes que trazem questões de direito para análise e reflexão ou até mesmo estratégias usadas por advogados em julgamentos difíceis e de alta complexidade.

 

Nos textos, escritos por diferentes advogados que enxergam no cinema uma fonte de prazer e inspiração, o leitor fica instigado a sair em busca de todos aqueles filmes ali profundamente analisados para serem vistos ou revistos sob esse novo enfoque, na perspectiva do homem perante a justiça.


No livro você vai encontra uma lista de filmes inesquecíveis como O sol é para todos, dirigido magistralmente por Robert Mulligan em que Gregory Peck vive um advogado justo e honesto que se empenha em defender um negro acusado de assassinato no racista estado do Alabama nos anos 30. Filadelfia de Jonatham Demme coloca brilhantemente um advogado lutando para manter seus direitos diante da inescrupulosa hipocrisia de um grande escritório. Portador do virus da AIDS, um tabu nos anos 90, apesar de ser um profissional brilhante é vítima de uma armação dos mandachuvas do escritório para que pudessem demiti-lo sem revelar as verdadeiras motivações.


O vento será tua herança traz também a luta nos tribunais tendo, de um lado a a ciência e de outro a intolerância religiosa, ou melhor entre a teoria evolucionista de Darwin e a Bíblia numa comunidade sulista Americana na década de 20 cegada pelo obscurantismo.


Uma reunião na sala do juri para estabelecer a sentença de um suposto homicida é a história do brilhante 12 homens e uma sentença de Sidney Lumet. Um só dos 12 jurados questionava a culpa do réu e, aos poucos, vai ganhando a adesão dos colegas. Na dúvida pró réu.



O livro é leitura obrigatória para quem gosta de cinema e gosta de acompanhar histórias que tentam resgatar o processo de se fazer justiça, de refletir sobre os caminhos do homem vivendo numa sociedade construída com leis que precisam sempre estarem sendo reescritas, abrangendo questões que se impõem como luzes que determinam novas fronteiras entre o bem e o mal, o certo e o errado.


Um exemplo disso é a discussão que o livro traz sobre o direito de abreviar o sofrimento de uma pessoa com doença terminal. Pendurada no conflito entre o crime a caridade a eutanásia é até hoje um tema que provoca calorosas discussões. O filme em questão é Invasões bárbaras, obra prima do diretor canadense Denys Arcand, aqui analisado brilhantemente por Gabriel Lacerda, meu antigo professor de Direito Tributário, que também é autor de O direito no cinema, lançado em 2007 pela FGV.


Os advogados vão ao cinema faz o leitor saborear cada ensaio uma linguagem que flui com clareza e espontaneidade sem cair no jurisdiquês. Nessa longa viagem de 700 páginas muitas das questões do nosso marco civilizatório são abordadas, tais como o racismo, a intolerância, a homofobia, a passionalidade, o meio ambiente, a corrupção, a invasão de privacidade, o falso testemunho, os crimes de guerra e tantas outras. Todas elas, sem exceção, são temas recorrentes do grande debate aberto e permanente da humanidade.

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