Os jornalistas do Netflix: Scandal

21/08/2019

Por sugestão do amigo Luis Carlos Bittencourt, o Bitt, uma aluna da Uva me pediu uma análise/depoimento do comportamento dos jornalistas de duas séries populares do Netflix: Scandal e Secret City. E eu, que não gosto de novelas, acabei assistindo às infindáveis temporadas das duas. Aqui vai o que observei da primeira.

 

A série entrega o que o nome promete: a palavra escândalo traz implícita um conceito de moralidade que deriva da reificação do bem e do mal. O seriado se apropria dos principais símbolos republicanos dos Estados Unidos e os profana de modo sistemático. A princípio como se fossem pecadilhos de indivíduos com desvio de caráter, mas logo de forma sistêmica, como se fosse um problema de comportamento e identidade nacional.

A série corrobora a famosa frase de Nelson Rodrigues: “de perto, ninguém é normal”.

 

Parece uma crítica ao puritanismo norteamericano, cujas origens remontam aos Peregrinos que a colonizaram, e que dariam sentido ao termo escândalo: “fato ou acontecimento que contraria conceitos morais”.

 

Quando vemos uma eleição presidencial sendo fraudada por um grupo palaciano; uma juíza da Suprema Corte assassinando pessoas e sendo assassinada pelo próprio mandatário mór; sexo extraconjugal no Salão Oval… nada mais pode nos surpreender, tornando possível todas as desdobras de cada episódio.

 

Mas essa promiscuidade moral tem exatamente a função de expor e exacerbar, de forma caricata, esses valores, para (re)precificar a moral luterana que permeia toda a sociedade americana. Ao nos estarrecer com tanta permissividade, a trama nos força a um julgamento engessado em um único critério de valor: certo ou errado?. Sem querer, condenamos e repudiamos o mal que nos é apresentado…

 

O jornalista-personagem na série é o James, marido do principal executivo da Casa Branca. Os demais são apenas coadjuvantes de menor importância.

 

Aparentemente íntegro, politicamente correto e engajado na eterna vigilância, ele foi construído com as principais características do jovem jornalista do mundo atual: inteligente, culto, homossexual assumido com fortes pendores paternais. E assim ele se move e se protege nas temporadas, até que chega o seu momento da verdade: como todos naquele universo, ele também tem seus conflitos morais, e acaba sucumbindo ao verdadeiro drama da ética - os fins justificam os meios?

 

A série lembra aqueles caldeirões de sopa em que os ingredientes são adicionados para ser dissolvidos, engrossando e dando substância ao caldo. O drama é o mesmo que aflige a todos, e só se encerra pela morte. Para alguns, como tragédia de purificação; para outros, como castigo cruel e imediato.

 

Mas como James poderia ser diferente naquele mundo em que vive?

 

A série parece comprometida com um pensamento elaborado da Idade Média, segundo o qual a bondade é o maior patrimônio dos simples, e deles será o reino dos céus. Foi dessa forma que a Bíblia tratou do assunto em Lucas: “é mais fácil passar um camelo pelo fundo da agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (18:24-25). O mesmo pensamento está embutido no refrão popularizado pelos padres de que “dinheiro não traz felicidade”. Pipocam na série ricos e poderosos envolvidos em todo tipo de falcatruas, crimes e pecados. Dos mortais aos veniais…

 

Todo estereótipo precisa ser construído sobre bases reais, e o de James não foge à regra. Jornalistas se acham sempre os próceres da verdade, os inflexíveis da ética, mas quando a farinha é pouca, separam logo o seu pirão.

Há inúmeros jornalistas como esses na filmografia de Hollywood, começando pelos personagens vividos por Jack Lemmon e Walter Matthau em "Primeira Página". Esse “patrimônio comportamental” também foi constituído na Idade média: os intelectuais, que na época eram os membros do clero, sempre se acharam acima do bem e do mal. Assim é a humanidade, e o que os meios de comunicação nos mostram, a cada dia, é que não há excessões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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