Tarantino, sempre Tarantino

 A turma da patrulha, sempre pronta a achar um alvo, deram agora para tachar Quentin Tarantino de machista desprezível. Alegam que em seus filmes a mulher é sempre algo periférico, a coadjuvante da coadjuvante. Em defesa a essa tola implicância poderíamos tecer várias considerações que ajudam a desmentir a essa sumária condenação. Kill Bill, por exemplo, é a história de uma heroína cheia de vigor e poder encarnada com toda a energia pela bela e saudável Uma Thurman. Um marco na carreira da atriz e um sucesso retumbante que gerou uma continuação, o Kill Bill II.

A mesma atriz já havia brilhado Pulp Fiction, e a cena de dança que ela divide com John Travolta é simplesmente antológica. Bridget Fonda não é a atriz principal, mas faz um papel fundamental em Jackie Brown, e Jennifer Jason Leigh faz em Os oito odiados o papel que permanece mais tempo em cena, longe de ser uma coadjuvante.

Na verdade, ao passar essa pequena introdução que procura mostra o papel da mulher nos seus filmes, apesar das temáticas pertencerem até mais ao universo masculino, é justo afirmar que estamos diante de um magnifico realizador, cuja obra é extraordinária e que, sem exagero, o coloca numa posição destacada entre o que há de mais significativo e inovador no cinema universal dos dias atuais.
Desde Pulp Fiction Tarantino surpreende pela irreverência com que lida com a violência, usando o pretexto da banalização como ingrediente para o senso de humor. Cheios de sangue e assassinatos, os filmes de Tarantino flertam escancaradamente com o DNA da comédia, pois o exagero e a inverossimilhança são propositais, plasticamente extravagantes e operísticas. Em Django livre a ação é centrada num ex-escravo que, ao vingar seus hediondos opressores, varre do mapa uma família de fazendeiros e seus capangas num banho de sangue que não me lembro de ter visto antes num filme com tanta intensidade. Tarantino cria um incêndio num cinema na Paris ocupada, onde todo o Reich assiste uma produção feita para realçar o poder bélico dos nazistas. Teria sido ótimo para a humanidade se o que Tarantino mostra tivesse realmente acontecido. Certamente milhares de mortes e atrocidades teriam sido evitadas. Neste ultimo, Bastardos inglórios, a personagem Soshana vivida por Mélanie Laurent é fundamental para toda a trama. E ainda temos a também belíssima Diane Kruger vivendo uma alemã que se torna pivô de toda uma reviravolta.
É prestígio para os atores trabalharem para Tarantino. John Travolta, Samuel L Jackson, Brad Pitt, Leonardo Di Caprio, Harvey Keitel, Philip Rooth, Chistoph Waltz, Al Pacino, Jamie Foxx, Michael Fasbender, Daniel Bruhl, Eli Roth, David Carradine, Robert De Niro, Michael Keaton, Dennis Hopper, Gary Oldman, Val Kilmer, Chistopher Walken, são alguns dos grandes nomes que trabalharam sob o comando do diretor. Para quem está no seu décimo longa metragem é um espanto. O número de atrizes é menor, mas não menos importante. Nomes como Patricia Arquette, Margot Robbie, Pam Grier, Daryl Hanna, Maria de Medeiros, além das já mencionadas Bridget Fonda, Uma Thurman, Diane Kruger , Melanie Laurent e Jennifer Jason Leigh estão atuando com destaque em seus longas.
Outra polêmica (o diretor provoca esse tipo de debate) é sobre o seu filme de 2019, Era uma vez em Holywood. Parte da crítica acha que ele está se tornando repetitivo e extremamente autorreferente, e que seu novo filme não traz nada de novo em seu repertório. Acredito que essa repetitividade é a forma do seu estilo, que é tão peculiar. A gente vê um filme do Tarantino e sabe que é do Tarantino.

Acontece o mesmo com Woody Allen e Almodovar, pois na verdade são poucos os realizadores, por melhores que sejam, que conseguem uma assinatura tão particular e marcante.
Era uma vez em Holywood é uma delícia, uma experiência do cineasta em metalinguagem, uma brincadeira com os contrastes comportamentais dos anos 60 numa Holywood replete de egos e de artificialidade. Como gosta de fazer, o roteirista-diretor dá um jeito de reinterpretar a história, dar uma torcida nos fatos, transformando a releitura numa homenagem elegante e criativa a Sharon Tate e ao cinema como um todo. Alguns perguntam qual foi o melhor momento de Tarantino neste universo tão especial de sua filmografia. Dificilmente apontarão “Era uma vez…” como seu melhor momento, que embora tenha todas as suas indiscutíveis qualidades, não atinge o nível de “Bastardos”, “Pulp” e “Django”.

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