23 de agosto - chega de saudades...

24/08/2019

 

Depois de tanto tempo esquecida, abandonada em seu cantinho úmido e sem qualquer chance de participação na vida familiar - talvez por piedade com tamanha fragilidade; talvez por esperança com um novo relacionamento - ela foi ontem finalmente lembrada na velha república.

 

Difícil dizer quem a procurou primeiro.

 

Teria sido aquele inquilino mais velho, há mais de três anos dividido entre o choro e o rancor pelo afastamento inexplicável de sua amada, justo quando o casamento parecia tão sólido, tão promissor e inabalável? Não! Não parece provável. Afinal, ele sempre recriminou esse tipo de comportamento e interferência…

 

Não parece que tenha sido o inquilino novo - aquele rapaz melhor de vida um tiquinho, e que vivia inventando novidades. Ele trouxera "essazinha" de trejeitos bruscos, com suas botinas pesadas, e partiu dele a campanha que a tornara a síndica do pedaço. Não. Não mesmo. Pelo menos não de sã consciência. Costuma bater no peito e se vangloriar da escolha que fez…

 

Fica a dúvida se foi a moradora mais novinha da casa, aquela que nunca teve preferências de gênero. Flertou com umas e outros, e agora, por isso mesmo, não teria qualquer compromisso com nenhuma das duas? Uma espécie de Pilatos local, sempre de mãos limpas em cima do muro?

 

Talvez fosse coisa da jornalista, que estaria agora de olhos na filha da nova gerente, pensando em trocar seis por uma dúzia. Ela já não fizera isso outras vezes?

 

Esse é um daqueles mistérios que nem a história há de revelar.

 

A nova dona do pedaço chegara com espalhafato, empurrando um carrinho de limpeza, armada com ferramentas e conversinhas moralistas. Foi logo impondo as regras com que planejava pôr ordem na casa. Mas, sob suas diretrizes mal explicadas, sua Entourage mais parecia a turma de Brancaleone a caminho do oriente. O conjunto da obra era dantesco.

 

A jovem senhora, coitada, tinha dois azares: um mau hálito insuportável, que só azedava o ambiente; e um ambiente hostil, que só azedava o que lhe saía pela boca. Não havia milagre capaz de transformar sua fala em doces palavras.

 

O estopim, com certeza, foi uma fogueira no quintal. Uns juram que seriam apenas umas folhas secas, juntadas para limpar o terreno. Outros já enxergaram um incêndio de proporções bíblicas, queimando a casa e, junto com ela, todo o planeta. Houve até quem dissesse que aquela fumaça teria escurecido a maior cidade do hemisfério.

 

Até a vizinhança fez até abaixo-assinado para expulsar a republiqueta do bairro.

 

Exagero? Desculpa?

 

Vox populi, vox Dei.

 

Como aquela senhora de perdigotos putrefatos ainda teve a petulância de abrir a boca para dizer bravatas do alto da escada? Faltaram-lhe limites? Não conseguia enxergar a si própria?

 

O fato é que ela, a nossa esquecida heroína, foi resgatada na noite de ontem, e promete não dar descanso, nem voltar ao abandono sem luta. 

 

Foi assim que, no começo da emblemática noite de 23 de agosto - a mesma noite em que Getúlio, quase setenta anos antes, se despediu em outra república - inesperada e inexplicavelmente, o que parecia impossível aconteceu: quebrou-se o encanto que calava os moradores da insólita república, e aquela antiga senhora, a já alquebrada Panela, foi chamada a por ordem na casa.

 

Tomara ela não se aposente. Que se juntem todos a ela contra qualquer tipo de esbulho possessório. Não só da dona da casa, mas de sua filha mais velha, já se preparando para sucedê-la; da tia togada, que colocou as mangas de fora; dos dois irmãos mais novos, que se julgam ungidos de Deus com suas regras estapafúrdias…

 

Seja bem-vinda, Panela. Que o seu som acorde a república e mostre quem manda de fato nessa espelunca.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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