Simonal, Elton John, Fred Mercury, Elis, Ray Charles e tantos outros...

Biografar celebridades é sempre um caminho delicado. É preciso que seja verdadeiro, consistente, devidamente autorizado pelo personagem e/ou pelos seus descendentes quando póstumas, e sobretudo ricas em elementos que possam interessar aos leitores e, no caso das cinebiografias, ao espectador. O diretor/roteirista tem que assumir um distanciamento crítico que evite a tietagem, assim como julgamentos implacáveis. Não é sempre tão glamuroso ser uma celebridade, é também perder a vida privada, é também ter que explicar cada passo, cada decisão, é obedecer a uma agenda extenuante, passar noites sem dormir.

Aqui no Brasil desde Os dois filhos de Francisco, um sucesso de público dirigido por Breno Silveira que conta a trajetória da dupla Zezé de Camargo e Luciano e a evolução da música sertaneja, temos ensaiado entrar nessa linha de fazer filmes que contam a vida de celebridades ligadas ao universo musical. Lá fora essa temática sempre foi um filão inesgotável. E por aqui, um país essencialmente musical como o Brasil, isso parece ter sido definitivamente percebido como um bom caminho. Já tivemos, entre outros, Gonzaguinha, Elis Regina, Tim Maia, Renato Russo, Cazuza e agora o polêmico Simonal.

Wilson Simonal foi o cantor mais popular do Brasil nos anos 70 com a sua pilantragem que se traduziram na trilha sonora daquela época. Escapista, apolítico, deslumbrado com o dinheiro que não parava de entrar, o cantor seguia a sua índole de grande animador de platéias, indiferente se cantava as maravilhas de morar num país tropical abençoado por Deus em plena ditadura militar.

Mas acabou se metendo numa confusão que acabou selando o seu isolamento no mundo artístico. O filme retrata bem o episódio ao retrata-lo com numa perspectiva menos efervescente que o olhar mais inclemente da época. O ator Fabrício Boliveira caprichou na sua performance e consegue repetir a linguagem corporal que tanto caracterizava o biografado.
Normalmente essas biografias servem para mostrar o turbilhão de emoções que vive uma celebridade. Frequentemente acabam mergulhando as suas angustias nas drogas, outras vezes vivem o conflito familiar, outras as dificuldades de suas opções sexuais, além da vertiginosa ascensão e a impiedosa queda para o declínio.

Recentemente tivemos em cartaz o excelente Bohemian Raphsody que nos entrega com a força de um furacão a vida de Freddy Mercury a partir da sua adolescência, desde quando ingressou na banda The Queen, até o seu universo se transformar numa loucura desmedida e incontrolável. É o gênio na fronteira da loucura, das obsessões, da necessidade cada vez mais irresistível de transgredir, mesmo sabendo que os excessos fatalmente o levariam a um desfecho trágico e definitivo. Rami Malek fez tão bem o papel de Mercury que levou o Oscar. Não é fácil viver um personagem como Mercury, mesmo que a maquiagem tenha exagerado demais na prótese dentária. Já The Rocket man mostra uma trajetória diferente. Elton John chegou às portas do inferno em boa fase da sua carreira (alias a fase retratada no filme), mas consegue dar a volta por cima, recupera-se e vive até hoje uma vida muito próxima do que pode-se chamar de normal, sobretudo para um astro. 

Rocket man é uma biografia de um artista vivo. No entanto, a maioria dos filmes do gênero é de artistas que já não estão mais entre nós. A maioria são pessoas com histórias difíceis, fora do que costumamos chamar de convencional justificando aquela frase que diz que todo gênio tem um pouco de louco.

Nomes como Tim Maia, Renato Russo, Cazuza, Edith Piaf, Ray Charles, Bird, Mozart e tantos outros, todos geniais que deixaram sua marca para sempre na linguagem sublime e universal de suas músicas. E ainda renderam bons filmes.

Please reload