Yesterday

Depois de assistir o simpático Yesterday, de Danny Boyle, não pude evitar de remoer lembranças boas do passado, voltar meio século e perceber o quanto toda a minha geração tinha sido fortemente influenciada pela liberdade daqueles quatro rapazes de Liverpool que foram rompendo fronteiras e se transformaram no maior fenômeno do século XX.
Éramos adolescentes em 1963 quando aquele grupo de ingleses com cabelos maiores do que se costumava usar na época fazendo aquele som que dizia iê iê iê de forma tão simples, mas ao mesmo tempo, tão original. Os mais velhos e conservadores olhavam para aquele grupo como um desvio de comportamento, talvez porque percebessem que o que viria era inevitável. E olha que eles tinham os cabelos bem penteadinhos, e usavam uns terninhos bem caretas. Mas veio o sucesso rápido e estrondoso. Com o tempo as músicas foram ficando mais complexas e o comportamento do grupo passou a mostrar traços de rebeldia e transgressão que serviram de inspiração para uma verdadeira revolução de costumes.
Naquela época, sem essa fartura de buscas por diversas plataformas de entretenimento, acabávamos fazendo parte de uma tribo que consumia as mesmas coisas e ao mesmo tempo. Visto assim sem muita profundidade, parece algo muito provinciano. E era. Mas havia um encantamento comum compartilhado pelos jovens que era uma delícia. Quando lançaram Sgt. Pepper, um álbum revolucionário, o mundo já sabia o significado que aquilo trazia. Enquanto o mundo queimava sutiãs, o som que vinha dos Beatles, dos Rolling Stones e de outros grupos que se formaram inspirados no novo modelo servia de combustível para fomentar as mais animadas teses e discussões que não só pavimentavam nossas trilhas sonoras como nos encorajava a enxergar o mundo de forma diferente.
Yesterday traz uma fábula de um mundo sem os Beatles depois de um apagão mundial que os elimina da história. Apenas um músico quase amador e de talento limitado, por ter sido atropelado exatamente no instante do apagão, não foi atingido pelo lapso existencial. Ele sabe da existência do grupo e conhece as suas músicas. Daí surge toda uma narrativa apoiada naquelas melodias excepcionais, aproveitando para mostrar o aspecto devorador do sucesso, do show business, ou melhor dizendo, de escolhas que se faz na vida e também das correntezas que nos arrastam para lugares que nos aprisionam. Mas não se assustem, o filme é uma comédia. Leve, divertido, romântico, se encaixa no estilo sessão da tarde.
A única observação é que talvez pudesse evitar o estereótipo um tanto exagerado da empresária americana ávida por lucros como uma madrasta, só para denunciar o excesso de interferência que muitas vezes transformam a vida de celebridade em um inferno. A vida de um artista famoso já é por si muito difícil. Você quer ter uma vida tranquila, poder flanar pelo shopping sem ser importunado e não ter que dar satisfação de seus amores e de suas posições políticas, então seja um anônimo.
Não há novidade nisso e nem um filme tem a pretensão de ser inédito nesta camada de perspectiva. É um filme simples, tão simples e bem estruturadinho que funciona exatamente aonde quer chegar. Faz você vibrar, se emocionar e cantar junto. Em tempos pesados como o atual, isso pode ser um bálsamo.

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