A literatura de Steinbeck no cinema

John Steinbeck viveu plenamente a primeira metade do século XX. Nascido em Salinas, California, em 1902 foi impactado pelas duas guerras mundiais, pela depressão americana, pelo macartismo e pelo new deal de reconstrução do ideal americano de Roosevelt. Um escritor soberbo, premio nobel, um grande pensador de esquerda. As obras ficcionais de Steinbeck serviram de forte inspiração para o cinema. Parecia que as suas narrativas já nasciam com o DNA do cinema. Ratos e homens (Of mice and men) teve duas versões cinematográficas, uma de 1939 de Lewis Millestone e outra de 1995 de Gary Sinise, e diversas adaptações para a TV. Viva Zapata, Vinhas da ira (Grapes of wrath), Vidas amargas (East of Eden) e Lifeboat são alguns títulos de Steinbeck para o cinema.
A pegada política está presente em toda a sua obra. Uma curiosidade é que o seu texto politicamente engajado foi adaptado duas vezes por Elia Kazan, cineasta que acabaria acusado de delatar colegas na caça aos comunistas durante o macartismo. São eles Vidas amargas e Viva Zapata. E também Vinhas da ira, um filme claramente identificado com a questão social, foi filmado magistralmente por John Ford, um director impecável, mas com tendências políticas bastante conservadoras. Mas tanto Kazan como Ford souberam de forma muito competente colocar em película toda a densidade da obra do escritor.
Tanto em Vinhas da ira quanto em Ratos e Homens, Steinbeck discorre um drama pessoal da falta de esperança numa America mergulhada na profunda depressão. Faz até lembrar os dolorosos filmes do neorealismo italiano, assinados por De Sicca, Visconti, Rosselini e outros.
Ratos e homens nos traz dois personagens trágicos, um sujeito abobalhado vivido por John Malkovitch numa dependência visceral do companheiro vivido por Gary Sinisi que, além de atuar, dirige o filme. Ambos conseguem um emprego para ganhar 50 dólares mensais numa fazenda agrícola na California. O proprietário da fazenda é um homem cruel e infeliz, cujo único prazer é explorar e maltratar os peões como se fossem animais. Você só sobrevive enquanto for útil. É uma escravidão mal disfarçada por uma remuneração pífia e pela liberdade relativa, pois era escolher entre aquela vida e a fome. Quando adoecer ou envelhecer é abandonado à própria sorte num país assolado pela miséria.
Ambos os filmes - Vinhas da Ira e Ratos e homens - são retratos vigorosos do desespero do ser humano em busca de algum fio de esperança para continuar vivendo.
Em Viva Zapata, Steinbeck abandona seu cenário usual, a California, para trazer a história do notável revolucionário no México. Emiliano Zapata é vivido por um Marlon Brando escurecido por maquiagem, já que na época do filme era complicado encontrar atores étnicos. East of Eden, abandona em parte a questão social e centra sua narrativa num drama familiar intenso, de ciúme, traição e rejeição, mas que não deixa de trazer junto a luta para enfrentar os desafios em tempos difíceis.
Sobretudo em Vinhas da ira e Ratos e Homens, a tragédia pessoal tem uma conexão profunda com a tragédia social. Não dá para ficar indiferente. A que ponto o homem pode se humilhar para sobreviver, a que ponto um assassinato é cometido num lampejo humanitário, onde uma escolha terrível passa a ser melhor que a outra alternativa.

Estes filmes são facilmente encontrados em diversas plataformas e também em DVD e será muito interessante dedicar algumas horas numa maratona explorando a obra de Steinbeck adaptada pelo cinema, sendo ele um dos autores que foram melhor entendidos pela sétima arte, Melhor ainda seria sentar numa boa poltrona e devorar na brochura esses textos soberbos da literatura mundial.

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