Bolsonança enfrenta a trama imaginária

 

Valha-me deus, quem é este cavaleiro de triste figura que adentra o covil da ONU dando coices? O governo Figueiredo acabou faz tempo, e também os tempos medievais das cavalarias, ô do cavalo! Será o Bóris, será o Donald?
Rocinante!!! Como vai? Ou melhor, como vem? Que bom reencontrá-lo por esta paragem surreal. Que faz por aqui? Sabe bem, ó Rocinante, que também sou da cavalaria. Também sei dar meus coices, talquei?
Em mim ninguém monta, não. Eu fui eleito. Diziam que, depois da posse, iam botar uma coleira para eu governar. Mas sou como mula sem cabeça, Rocinante. Já se viu lá coleira em mula sem cabeça? Não sou como esse louco magricela quixotesco montado aí, nessa sela de couro brasileiro, com essa espada a atacar moinhos imaginários. Se, pela tentação do demônio, esse cara resolver enfrentar as torres de energia eólica no Brasil o pessoal do agronegócio não vai gostar. E couro brasileiro é brasileiro; não é para estrangeiro nenhum não.
Esse pessoalzinho cor de rosa que nem dá no couro, quer vir comprar couro no Brasil? Couro neles! Essa cambada que usa cuecão de couro e anel de ouro? Aqui não: é questão de soberania. Aqui não tem prá ninguém.
Ainda mais esse tal de Quixote... Vê lá, hein Rocinante, eu tenho o chicote, talquei? Em mim ninguém monta, não. Ninguém, nem o temerário Temer montou, nem lá o nove dedos montou, quando eu era pixote do baixo clero; agora então é que não vai montar mesmo.
Acabou o monopólio do cacique; agora é índio contra índio e quem manda mais sou eu. Eis o novo cavaleiro andante a enfrentar os gigantes de interesses escusos. Quem mais valente do que Amhaddad de Jaula? Quem mais bravo do que Rodamonte? Quem mais doido que Cirongilio de Tracia? Quem mais invencível do que Geraldo bondoso? Concorri contra todos e ganhei. Eu fui eleito. Eu sou o eleito.
Vou dizer uma coisa para vocês... Acabo de sobrevoar a Amazônia: ó cenário alcantilado, à sombra dos bosques e ao sol dos descampados. As coisas admiráveis que vi... Não é nada desse fumacê que a imprensa venal publica todo dia, dia sim, dia não também. A beleza da paisagem, a abundância das águas, a fertilidade dos campos... Chegando à cidade de ruas limpas e prédios imponentes, vi uma população em pleno emprego, sem ideologia nos lares, sem panelaço nos ares, sem violência nos bares, discutindo a filosofia do Olavo, povo lavajatado e diligente, igual japonês – vocês já viram japonês pedindo esmola?
Parece-me bem alimentado, Sancho Pança; afinal, diga-me lá, só a sua pança cresce neste país que a esquerdazinha chama de miseráveis? E, depois, essa gentinha ainda diz que tem gente passando fome. Isso é coisa daquele Lula-lá, com aquele papinho de papinha prá pobre, aquela tal de fome zero. Zero agora é zero de inflação, zero de concurso, zero para boquinhas, zero de corrupção, zero de aumento salarial, zero de crescimento.
Esse gigante Bolsonante até me faz lembrar aquele velho companheiro de regimento, o Recruta Zero. Zero de solução. Ficam dizendo por aí que vivo criando problema: é zero de problema. Problema com índio? Acaba com o índio, acabou o problema. Problema com o meio ambiente? Acaba com o meio ambiente, acabou o problema, meu deus do céu. Problema com a primeira ministra da Alemanha? Problema com o presidente da França? Vocês só podem estar de brincadeira. Se me provocarem, paro logo com essa conversinha por aqui. Tá parecendo mentira da mídia sinistra – que em todo governo de sacanagem sempre foi ministra – inventando fofoca sensacionalista e fakenews...
Vem cá: tenho uma vaga prá embaixada da Espanha. Esse fidalgo, esse filho d’algo, Chicote, Quixote, é filho de qual algo mesmo? Daquele pessoal que dança xote lá no Nordeste, aquele país dos governadores? Aqui governador, mesmo aquele “melhorzinho”, acha que manda: a Amazônia em chamas, já fica com inveja e já bota fogo no Ceará: é uma zona, uma zona completa e eu, presidente, faço o quê? Só porque eu fui eleito, agora qualquer um acha que pode ser presidente? Aqui em Brasília mesmo, anda cheio de presidente flertando com parlamentarismo: é da câmara, do senado, do supremo, e eu, que fui eleito, faço o quê? 
O quê? Este cavaleiro ouviu dizer que Brasília transformou-se numa casa de loucos, manicômio onde ninguém se entende? E só por isso achou que pode montar barraca? Vai te catar, ô maluco beleza. Brasília já tem louco de sobra; o problema é que a doce Dilcinéia saqueou as contas públicas para pagar um cabeleireiro que saía de São Paulo e ia a Brasília toda semana. Tá faltando dinheiro, não ouviu falar lá no posto Ipiranga? E onde falta o pão, só eu tenho a razão.
Tosco, eu? Primário, eu? Simplório, eu? E eu sou lá de falar da mulher dos outros? Não falo, é meu falo falando. Mas que essa tal de Brigitte Bardot é feia prá caralho, lá isso ela é. Prá quem já foi musa de Búzios, pelamordedeus, kkkkkkkkk!
Gente, nada de vingança, rinha e vitupério. Só falo mal de quem já morreu: do pai do presidente da OAB, do pai daquela presidente lá do Chile. Mas de mãe, não falo. Nem da mãe lá da esposa, a tal da sogra. Fez errado, tem que pagar. Se tiver dinheiro, né. Mas tem que pagar. De um jeito ou de outro.
E ainda andam dizendo que não faço nada a não ser tuitar. Que vivo numa realidade imaginária tal qual esse cavaleiro da triste figura aí. Gente, eu crio uma crise por dia, talquei? Isso é pouco? Baixo um decreto proibindo queimada por 60 dias, e ainda acham pouco? Pode apertar, mas fumar, por 60 dias, não: está proibido. E quer saber mais: acabou a palhaçada. Já tem palhaço no Reino Unido. Já tem palhaço nos Estados Unidos. Chega de palhaçada.
E ainda mais: vou proibir também a fabricação de pão francês. Esse pãozinho fabricado aqui no nosso país só para agradar o maridinho daquela tal de Bel, aquele príncipe D’Eu. Deu o quê? O que é que ele deu? Me digam, hein, me digam aí? Ela, todo mundo sabe, dizem que gostava dum neguinho, a tal da libertadora. Agora esse D’Eu, quero que me digam: deu o quê a este país acima de tudo, deus acima de todos?
Tão falando aí nas redes sociais que fiz cirurgia para cortar aquilo roxo. O quê que é isso, pessoal? Como é que eu vou poder fuder com todos vocês? Pega aqui a espada! Espada no bom sentido. Aqui todo mundo é espada, não tem ninguém vestindo cor-de-rosa não. E não tem essa de acordo nenhum, talquei. Como é que posso fazer acordo se não acordei ainda? 

Ó Duguay Trouin, Senhor de Gué, corsário de Saint-Malo, onde sem vergonha toma banho de mar sem maiô. Ó Villegaignon, comandante da ordem de Malta, em guarda: tão logo se recupere da cirurgia, o capitão motosserra aqui vai invadir a Guiana francesa. E digo mais: acabaram-se os solecismos escatológicos, os palavrões olavistas e os galicismos, talquei? En garde, Obelix, Asterix, quero ver agora quem maneja melhor a espada, se Macron ou o churrasqueiro do filé-mignon! Em mim ninguém monta não!

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