Democracia em Tuítes

Vai chegar um tempo de pensamentos tão rasos, que não será possível elucubrar além de uma frase. Já não há espaço para ensaios de Montaigne, para pensamentos de Pascal ou para memoriais de Diderot. Não só os grandes argumentos não serão lidos, por falta de tempo ou interesse, como sequer serão compreendidos ou assimilados para o esforço saudável da contra-argumentação e do debate. Cairão no vazio disruptivo das mentes ocas. O tempo que chega será, no máximo, o tempo das máximas ou mínimas, haikais que, num verso de dezessete sílabas, deverão resumir todo o curto pensamento e suas “curtidas”.

A filosofia do tuíte, do argumento resumido numa frase, está nascendo. Ainda sob a forma de clichês ou carimbos que uns e outros gostam de apodar aqui e ali, ou sob o manto dos maniqueísmos zombeteiros e dos conceitos enfezados dos extremados olavos, que em tudo têm razão para, afinal, não terem razão alguma. Mas vai-se chegar lá e o caminho dos textos curtos não deverá ser longo nem árduo. Afinal, o caminho foi aberto por Epicuro e Confúcio e basta segui-lo. 

Um pensador amigo, inquieto com os tempos turvos, se propõe agora a mediar uma rediscussão sobre a deformação teratológica da democracia, tão bem e tão mal falada, em conceitos tuitológicos de uma, duas frases no máximo. E resolveu democratizar a iniciativa, convidando os cidadãos digitais a elaborar alguns clichês sobre o assunto. Como, de conceito tão singelo e tão belo, a democracia transformou-se neste monstro de doenças congênitas e adquiridas.

Parece que demo tem a ver com o homem e com o diabo. Comecemos com a demonstração de Plínio: “nada é certo senão a incerteza, nem nada há de mais miserável e orgulhoso que o homem”. Ou como nos irmãos Karamazov: “quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo as pessoas em particular, os indivíduos”. Ou com o Padre Antônio Vieira: “Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o mundo fora santo”. 

Democracia – o governo dos homens para os homens – é uma derivada de representação política criada pelo homem depois que cria, como ficção jurídica, o Estado. O Estado é, ou deveria sê-lo, uma projeção de poder que o homem criou para o melhor ordenamento da sociedade. Estupidez? Aqui é bom lembrar Spinoza: “o Estado não é razão da ação racional dos homens, mas do choque de suas paixões”. 

Incapaz de viver livre como os pássaros e os peixes, o homem vai trocar os medos e esperanças individuais pelo medo e esperança coletivos, criando no Estado uma rede de proteção que logo se transformará em burocracia de penduricalhos para lá na frente transformar-se em tirania. E pior, financiada pelos impostos que ele próprio paga.
Iludido, atado pelo emaranhado das leis que ele mesmo cria e, segundo as quais direito é uma coisa e justiça é outra, sufocado pela burocracia a que se amarrou, o homem depara-se cotidianamente a lutar contra hidras sem cabeça, monstros sem face do coletivo, famintos, devoradores, inquiridores, inquisidores, opressores, corruptos, perdulários, burocráticos, ineficientes. Uma burocracia que tomou o país de assalto em todos os níveis e todos os guichês e que se auto-alimenta e se corrompe, criando dificuldades para vender facilidades, fazendo perguntas idiotas para ouvir mentiras, e propondo mais impostos para rolar a dívida da incompetência e financiar a pesada e inútil máquina pública de um Estado inchado, paquidérmico.
O resultado aí está: desencanto, cansaço, desânimo diante do desinteresse dos poderosos pelas questões de verdadeiro interesse, revelando um Estado inoperante e incapaz de enfrentar os desafios e as necessidades do dia-a-dia. Com isso, abre espaço para vicejar outro Estado, o do poder paralelo, que o ameaça e ameaça a todos.

Qualquer crítica aos poderosos sem pudor – que agora já brigam em público – é vista como ataque à democracia, sob cujo manto se escondem os ladravazes contumazes. Agora mesmo, em nome da “democracia” dos próprios interesses impróprios, acabam de propor que o povo pague pelo exercício democrático de ser iludido em caixas 2 de campanhas eleitorais que não dizem nada a não ser manter privilégios de gatunos oportunistas. Qualquer espanto com decisões, desprovidas de sentido e de coerência com a realidade, é visto como ataque de risco às instituições. Os poderosos, preocupados em manter e aumentar privilégios, não têm vergonha de expor a incompetência, a iniqüidade e a injustiça.

Não é preciso ser profeta do caos: está tudo em ruínas. O Estado ideal está falido. As instituições ideais estão corrompidas. A sociedade ideal vai para o buraco. As utopias acabaram. Temos que nos contentar com o possível e o possível anda de amargar. Para guiar a reflexão sobre o assunto, nosso editor propõe que se responda a essas simples perguntas: qual a razão primeira, o papel do Estado, qual o tamanho ideal do Estado, quais são hoje e serão amanhã as prioridades da sociedade, quais reformas são inadiáveis e quem deve conduzi-las.

Para, a partir daí, fazer uma concertação para consertar ou um acordo para começar tudo de novo. Podiam aproveitar essa discussão do pacto federativo para começar a fazê-lo.

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