Rio já foi figura fácil no cinema

Hoje com tantos problemas, autoestima no fundo do poço, governantes surreais, o Rio de Janeiro já teve outrora uma imagem positiva e muitos momentos de glória. Nada mais merecido que o título de cidade maravilhosa cantada a plenos pulmões, com suas montanhas emoldurando suas praias e enseadas, além de uma arquitetura que lembrava uma Paris tropical.
Nem o cinema internacional ficou indiferente a todo esse glamour que os cenários naturais do Rio podiam proporcionar. Personagens de centenas de filmes, em algum momento, citam o Rio como um paraíso onde eles irão morar para fugir da lei, uma forma curiosa de colocar ao lado das delicias do clima, da beleza e da receptividade cariocas, uma certa leniência com o crime. Aqui o foragido viveria com sua fortuna ilícita muito confortavelmente em frente ao mar sem ser molestado. Mas outros tantos filmes citam o sonho de morar no Rio apenas como um presente para passar a vida flanando pelas ruas arborizadas e curtindo a natureza exuberante.
Fora as inúmeras citações, o Rio já esteve na tela em diversos filmes de aventura, romance e dramas de diversas nacionalidades. Belmondo já veio resgatar sua namorada Françoise Dorleac no Rio no filme O homem do Rio de 1964. Claudia Cardinalle já foi uma “carioca” em Uma rosa para todos. Fred Astaire, Ginger Rogers e Dolores DelRio já ensaiaram seus passos por aqui no delicioso Voando para o Rio, de 1933. O filme conquistou o Oscar de melhor canção original. O nome da canção? Carioca, de Vincent Youmans.
Em ritmo de aventura, James Bond já esteve aqui contra o foguete da morte, com Roger Moore enfrentando seus inimigos com a baia da Guanabara ao fundo. Até o Tarzan já apareceu por aqui numa inacreditável aventura que mistura o Rio com Floresta, índios e tribos, com uma participação do Paulo Gracindo que leva uma flechada na Avenida Rio Branco. Frequentemente a percepção do estrangeiro criando uma terra exótica também aparecia.
Hitchcock usou o Rio como cenário para Interlúdio (Notorious) de 1946, com Ingrid Bergman e Cary Grant. Lá aparece a dupla sentada no Amarelinho na Cinelândia, conversando e traçando suas estratégias. Jean Dujardin que ficou famoso como o oscarizado O Artista já rodou o seu agente 117 aqui no Rio (O Rio não responde mais), assim como o verde Hulk já andou às voltas com desafetos infiltrados nas favelas da cidade maravilhosa. Também andaram circulando pelos becos das comunidades cariocas Charlotte Rampling, Bill Pullman e Irene Jacob, no divertido Rio sex comedy.
O aclamado mestre de musicais, Stanley Donen (Cantando na chuva, Sete noivas para sete irmãos, Funny Face) dirigiu seu penúltimo filme com uma historieta romântica rodada no Rio de Janeiro. Feitiço do Rio tinha Michael Caine e Demi Moore no elenco. As franquias milionárias já vieram também para o Rio como em Velozes e furiosos 5 (Operação Rio) e Os mercenários.
Para terminar, o Rio de Janeiro, a exemplo de Nova Iorque e de Paris, também foi uma das eleitas para a série que celebra com historias fofas aquilo que há de bom nessas cidades eleitas. Rio, I love you foi rodado em 2014, integrando artistas brasileiros e estrangeiros.
O Rio nunca foi o paraíso perfeito que às vezes a paisagem parece sugerir. Sempre houve questões com infraestrutura, transporte, habitações ilegais e precárias, e muitos contrastes. No entanto, havia por aqui muita música e muito charme. Houve tempo em que cadillacs conversíveis desfilavam na orla sem medo de arrastões e, quando sentados numa mesinha do Veloso, a gente podia ver passar uma tal garota a caminho do mar. Infelizmente uma profecia do cinema acabou se revelando mais verdadeira que a própria ficção. Ao sugerir um paraíso da impunidade acabamos por inspirar um circo inescrupuloso de malfeitores que acabaram ocupando os palácios, os gabinetes e as secretarias, deixando um rastro de sujeira que roubou da população o orgulho , o encanto e a esperança.

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