Coringa (Joker)

Fui ver Coringa no dia de sua estréia. Tinha decidido não escrever sobre ele, pois teria sempre a sensação de estar repetindo o que vem sendo exaustivamente publicado pela crítica e também nas redes sociais. Filmes assim muito polêmicos acabam inspirando todo o tipo de debate e, na verdade, encontrei gente que simplesmente o detestou e outras tantas que o veneraram. Adoro filmes que despertam opiniões divergentes.

Na verdade, o que o tão festejado e esperado Coringa nos traz? Que simbolismo tem Gothan City, berço do Batman, o herói mais dark das histórias nascidas nas tirinhas dos gibis?

Para começo de conversa, em todos os filmes do Batman na brilhante sequencia de Christopher Nolan já predominava essa atmosfera sombria com camadas da mais nua e crua realidade de uma sociedade que sucumbiu e não soube se preservar. Não seria difícil deduzir o que seria um herói cognominado de príncipe das trevas, um animal noturno como um morcego. Por que diabos um animal desagradável como o morcego possa ser a inspiração de um justiceiro numa cidade infestada de ratos e malfeitores.

Mas acabei não resistindo e estou aqui tentando dizer alguma coisa sobre o filme Coringa (The Joker), onde o Batman nem aparece como tal. O personagem vai construindo o seu caráter criminoso à medida que o mundo lhe é hostil. Alguém fraco, indefeso, que consome muitos remédios todos os dias, visita uma psicóloga do Estado que parece não lhe ouvir, sofre as mais diversas humilhações e ainda tem uma mãe louca, um certo dia resolve virar o jogo. E essa persona vira uma obsessão na mascara de um palhaço com um sorriso rasgado. E a onda de violência passa a dominar a caótica Gothan City, uma Nova Iorque ficcional, com a multidão ensandecida e absolutamente desencantada inspirada pelo palhaço assassino. Uma espécie de inconsciente coletivo passa a dominar a cidade.

O filme conduz essa história com extrema competência e para isso conta com um ator chamado Joachin Phoenix que, embora já tenha um patrimônio artístico construído com muito talento que o coloca no pódium entre os melhores atores vivos, aqui ele se supera. Sempre achei que papéis de psicopatas, deficientes, loucos ou portadores de alguma característica que exijam uma linguagem corporal diferente fossem como um presente para um ator poder mostrar toda a sua força. Phoenix é o filme que ainda conta com Robert De Niro no papel de um apresentador de TV que faz tudo, não importa a quem doer, para ganhar pontos de audiência.

Todd Philips, americano do Brooklin, escreveu e dirigiu essa versão centrada no arquiinimigo do Batman.
Philips vem de uma carreira de comédias, destaque para a franquia “Hangover”, onde vinha mostrando um bom timming para comédias de riso fácil, mas aqui ele acaba entregando um drama de vários megatons de intensidade.

Cruel, forte, uma metáfora apocalíptica dos tempos estranhos que estamos vivendo, Coringa é um daqueles filmes que permanecem martelando a nossa cabeça, mesmo muitas horas depois de
deixarmos a sala escura. Mas deve ser evitado por quem tem o estômago fraco.

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