A Odisseia dos tontos - o excelente humor argentino

 

Os hermanos podem ser nossos eternos rivais no futebol, além de poder se agravar muito a questão diplomática entre os dois países causada pela inacreditável troca de grosserias entre os ocupantes do cargo presidencial, mas o cinema feito lá vai de bem a melhor.

A Odisséia dos tontos, dirigida e escrita por Sebastián Borensztein (do também hilário Um conto chinês), já começa no título fazendo uma brincadeira com o épico de Homero onde Odisseus (Ulysses) enfrenta uma série de dificuldades na sua volta para Ítaca. A Ítaca deste grupo de personagens argentinos, atolados na crise econômica de 2001, é pegar de volta aquilo que lhes pertence, subtraído num golpe desonesto e premeditado. De cara, a música de abertura é Danubio azul, a clássica valsa de Strauss, magistralmente usada por Kubrick no lendário 2001, uma odisséia no espaço. A crise econômica é a de 2001, vejam outra brincadeira com o titulo. E as referências cinematográficas não ficam por aí, pois uma cena de Como roubar um milhão de dólares, deliciosa comédia temperada com suspense realizada por William Wyler nos anos 60, são usadas pelos “tontos”como inspiração para o seu projeto.

O bem e o mal são bem definidos e bastante temperados com refinado humor. Essa deliciosa ênfase no maniqueísmo em tom fabular lembra bastante os filmes dos anos 30 e 40 de Frank Capra que tinham uma verdadeira obsessão em resgatar os valores morais dos honestos e dos justos que lutavam para neutralizar os malfeitos daqueles menos preocupados com questões de ética. Era preciso dar uma injeção para resgatar o ânimo desgastado pela depressão.

Com as sucessivas crises que assolam o nosso belo vizinho ao sul, uma política assemelhada ao New Deal talvez fosse terapêutico, mas faltaria alguém com a estatura de um Roosevelt.

Deixando a divagação de lado e voltando ao filme, ressalte-se que Ricardo Darin, embora não seja o único, é a grande estrela do cinema argentino. Já recebeu inúmeros pedidos para fazer cinema abroad, mas sempre preferiu continuar dando uma contribuição (e que imensa contribuição!) ao cinema do seu país. Desta vez, seu filho Chino Darin está no elenco mostrando que o talento está no DNA.

Um filme delicioso, mais uma pequena pérola do bom cinema feito na terra de Messi, e uma dica: não saia do cinema durante os créditos finais no risco de perder uma ótima cena bônus no final.

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