Parasita

Há centenas de filmes que exibem o abismo entre ricos e pobres. Assim como é também muito comum histórias em que os ricos se relacionam com os empregados com uma certa gentileza desde que seus privilégios não sejam ameaçados, como mostrava o premiado e festejado Roma de Cuaron. Como já dizia o príncipe Don Fabrizio Salina em O Leopardo, de Visconti, é preciso aceitar algumas mudanças para que as coisas continuem como estão.

Na verdade, apesar de abordar claramente essas questões, Parasita transita sobre essas questões com um olhar bastante peculiar. A família rica que levita na superficialidade de sua mansão com arquitetura deslumbrante não é exatamente o núcleo de vilões, mas aceita sem questionamentos nem remorsos as fracas evidências que são plantadas para se ver livres de seus fiéis auxiliares. Já a família pobre enxerga naquele teatro raso e escapista uma oportunidade de ascender ao irresistível mundo da fartura, sem se importarem com os obstáculos éticos que terão de ultrapassar. 

O director sul coreano Bong Joon Ho (Mother), que também assina o roteiro, imprime um clima de crescente tensão, que vai tirando o fôlego conforme se adensam as relações pessoais dos personagens, indo do cômico ao trágico sem poupar absolutamente nada. As reviravoltas da trama surpreendem o espectador diversas vezes, com a ajuda de uma câmera esperta e bem posicionada, com que Bong Joon Ho extrai de todo o elenco performances notáveis. 

As pessoas que andam no metro, ou seja, o povo, têm um cheiro que parece quando se ferve um pano de chão, são as percepções de estranhamento que a família rica têm em relação aos seus serviçais. 

Mesmo numa Coréia do Sul que vem há décadas incrementando fortemente seu PIB com uma indústria sólida e moderna, ainda existem bolsões de pobreza e um distanciamento imenso entre ricos e pobres. 

Aquele porão fétido e insalubre onde vivem os quatro trágicos personagens, nada mais é do que a caverna dos excluídos, de onde, como no mito de Platão, só é possível enxergar a realidade (ou outra dimensão da mesma), quando fugimos dela - a caverna. 

Palma de ouro em Cannes, é sem dúvida um dos melhores filmes de 2019.

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