A Dona da Casa

15/01/2020

 

Um Estado semi falido e com sua única fonte de renda concentrada na extração de uma riqueza com prazo de validade vencido e à espera de julgamento. Uma Cidade que encerra o ano com Hospitais fechados por falta de dinheiro e trata o turismo como estorvo.

 

É de dilacerar o coração assistir aos dias passarem no Rio de Janeiro. Uma performance de fazer inveja a atleta sexual: uma atrás da outra, incansavelmente. Há anos e sem parar!

 

Lembra aí da tragédia do lançamento do carnaval? Vai anotando. Na terça-feira seguinte, ontem, com a cidade cheia de turistas, plenas férias de janeiro. Pergunte a que horas o Metrô fechou metade das portas de suas estações do Largo do Machado, sabe-se lá com que argumento? Dez horas da noite.

 

Quem passar por Ipanema nesse horário, vai tomar um choque. Tudo escuro! Outra porta de estação fechada na Praça da Paz. A essa hora, o centro da cidade parece um conto de Stephen King dirigido por Ridley Scott.

 

Como isso contribui para melhorar as coisas? Impulsionar a atividade comercial? E a Cultura? Os bares, restaurantes, teatros, cinemas? O que será feito do sentimento de pertencimento e felicidade do carioca?

 

Se pesquisaram, não gostaram do resultado e rasgaram o relatório… Mas acho que não pesquisaram, porque pra isso seria necessário que se importassem. Essa é a verdade - eles não se importam.

 

Não era bem esse o título que tinha em mente pra expressar minha indignação. Queria algo mais contundente, como Dona de Casa, pra caracterizar claramente as qualidades que acho que estão faltando há muito nos governantes dos Rios de Janeiros. Ambos os dois. Sentimento de compromisso.

 

Mas achei que os mais antiguinhos poderiam confundir com a vassourinha comprometida do Jânio Quadros, e deslocar os meus pensamentos para cômodos incômodos.

 

Aí me ocorreu Choque de Ordem, e imediatamente me lembrei do alcaide anterior, que chegou a nomear um Xerife para a cidade, e não passou de publicidade. A tal ordem nunca chegou. O Xerife era meio bandido, e agora virou bruxo do Bispo, levado pelas mãos do sogro - justo o pai da moça que levou uns tapas do brutamontes - e que vem a ser segunda maior autoridade da antiga Capital da República… Jesus!?

 

Voltando então ao Nervosinho do Choque de Ordem: mesmo com o alinhamento estelar que mantinha com outras constelações mais brilhantes no pomar das laranjeiras cabralinas, e nas ludílmicas alvoradas planaltinas - a quem denega sem ficar rosa - deixou sem ordem alguma o Porto Maravilha, o Tesouro Tunicipal, as obras faraônicas da Vila Olímpica e a Avenida Brasil… Confiou na máquina e chorou, coitado, com a decepção de ser derrotado por um ilustre e careca desconhecido. 

 

Não há que perder tempo com as nulidades de Big Foot, agora encaixotado. Muito menos com o tardiamente revelado Craque das Laranjeiras, que infestou o Estado com potentes e vorazes cupinzeiros. Certamente não foi ele quem inventou essa desgraça, mas não se pode negar a sua capacidade para aprimorar uma praga tão primitiva. Por todos os lados que se olhe: quantidade, volume, peso, importância e, principalmente, capacidade de alavancagem. Segundo consta, nada lhe escapou. De fora, mesmo, só a sua companheira, beneficiária direta da magnanimidade do mais controverso e diabólico matogrossense instalado no condomínio do STF.

 

Contou (ele, o craque) com ajudas célebres, é verdade, mas todas agora contidas na Luxor do Gericinó, o Vale dos Reis de onde se espera apenas que desenterrem os tesouros e esqueletos. A lista é inominável. O dano ao Estado, proporcional.

 

O Bispo, desde a chegada, não sai do banheiro. Uma atrás da outra. Algumas sonoras. E dá por certa a recondução…

 

E o Aprendiz de Rambo, que só pensa em ser a Rainha do Baile - o único branco careca que saúda o mundo como um Pantera Negra (daqueles dos anos 60, mas) vai entender...  Bem, o cara se acha! Não moveu uma única pedra no tabuleiro que apontasse para um caminho virtuoso, em todos os sentidos. Isso, com os motores e a popa do seu barquinho já submersos.

 

Talvez - Oxalá deste ano não passe! - o Rio consiga escolher alguém menos pior na eleição que está chegando.

 

É aí que entra a Dona da Casa. Não precisamos de antigas rixas de destros contra canhotos, de discussões acaloradas sobre a virtude e o pecado. De milagreiros. Caçadores de nada. E muito menos de empertigados doutores com passagens por Harvard. Precisamos - apenas - de uma Dona da Casa! Alguém que tenha uma visão geral do cafofo, e resolva, de verdade, começar a tirar o mau cheiro e colocar ordem na casa. Que se sinta dona do espaço para fins dignos.

 

Pra isso, sem gracejo nem qualquer conexão com machismo e preconceito, só consigo pensar numa coisa: o Rio precisa de uma Prefeita! Simples assim.

 

É espantoso que a cidade das vanguardas nunca tenha tido uma prefeita.

 

Mas não é obviamente por isso. A cidade precisa de alguém que acolha sua população, que pelo menos busque uma solução para a sua crescente população de rua. De uma proteção maternal que pudesse impedir a sua guarda municipal de usar bombas de gás para dispersar carnavalescos na cidade do carnaval.

 

A visão espacial das mulheres, inata e sabidamente melhor que do gênero oposto (ops, de um deles, pelo menos) é o elemento básico que nos falta. Elas de longe percebem o que está fora do lugar, reconhecem um falseio, e jamais esquecem.

 

Não são mais honestas do que ninguém, mas parecem perceber melhor os riscos da desonestidade, e isso as mantém atadas à ética por muito mais tempo.

 

Mas o principal, de verdade, é que essa pessoa ainda não existe nos viciados gabinetes palacianos e parlamentares, onde só nascem e florescem acólitos e asseclas, espécies comprometidas e claramente com desvio de finalidade. Isso me dá esperanças.

 

Penso em alguém com cara da querida Marina Colasanti, que de pronto se riria dos meus devaneios. De Nise da Silveira. De Madamme Curie, para usar figuras que já não poderiam se apresentar para a tarefa. Ou da mais simples Maria, que conseguiria se apresentar de peito lavado e com respostas honestas.

 

Se essa visão idílica se materializar, sem vícios de origem, sem compromissos fundamentalistas, sem dogmas, com um mínimo de formação escolar para não assassinar a língua, e a ficha limpa, ela terá o meu voto.

 

Mais do que isso, vou me engajar para que se eleja e comece a por a casa em ordem.

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