Um caudaloso Rio de paradoxos

08/03/2020

Estranha sexta-feira, 6 de março de 2020.

 

O Rio de Janeiro, mal saído de seu 455º aniversário, viveu mais um de seus intermináveis paradoxos: enquanto Clarice Niskier reunia o povo do teatro na estréia de um libelo de resistência poética à cultura no Leblon, no centro da cidade o Teatro da Maison de France encerrava suas atividades.

 

Comecemos pelo começo: Clarice Niskier. Uma costura poética irretocável para pedir aos cariocas que não desistam de sua cidade e de seus sonhos. Que cultivem suas esperanças; que as alimentem com o quase nada de que precisam para vicejar. Que as deixem criar asas para que dêem filhotes em outras caixinhas de miçangas. Para além de um espetáculo, um sentido. Um propósito. Uma tomada de posição contra a cultura do deixa pra lá, que se instalou por aí desde o final do século passado.

 

Uma tênue linha de ironia em sua sutura, ora enterrada por agulha que queima o peito de quem se lê nas palavras, ora arrancada da garganta de quem se cansou de calar. Imperdível e necessária A esperança numa caixa de chicletes Ping-Pong, em cartaz no antigo Teatro Leblon.

 

Dito isso, passemos aos paradoxos: o nome do teatro, agora chamado Teatro Petra Gold, é um deles. Com a XP e a Prudential, que adotaram os antigos teatros do Jockey e da saudosa TV Manchete, três salas da cidade ganharam parcerias de peso. Parece uma aposta dos setores produtivos na cultura e na dramaturgia fluminenses.

 

Seria de fato?

 

O fim melancólico do Maison de France na mesma sexta-feira diz que não. Agonizou por anos, como quase todos os teatros da cidade, lotando com os convites da estréia e amargando públicos pífios em temporadas cada vez mais encolhidas. Canso de ver platéias de quatro, cinco pessoas pelos teatros da cidade. De cortar o coração pelos artistas, pela arte e pela atrocidade que representa para todas as esperanças da cidade. Que tipo de população se desenvolve numa megalópole onde a arte é sepultada pelo entretenimento? A melhor imagem que me acode é o submundo chuvoso de Blade Runner, com espetáculos eróticos envolvendo serpentes e andróides.

 

A questão da produção cultural no Brasil é gravíssima. Não são apenas os teatros que sofrem. As editoras já não publicam autores brasileiros há anos. Os jornais já não publicam cultura. E as edições impressas desidrataram em tamanho e tiragem. As livrarias também estão fechando. Grandes teatros do governo, como o João Caetano, direcionam suas pautas para espetáculos musicais para permanecerem abertos.

 

É claro que sempre podemos culpar os governos. Ainda mais no Rio de Janeiro (faça-se uma ressalva: em São Paulo não é bem assim), onde eles não existem, de fato, há anos. Mas não podemos mais continuar fingindo que não temos nada com isso. Parabéns mais uma vez Clarice! Não podemos continuar permitindo que as políticas públicas sejam definidas por critérios espúrios. Que nossos administradores não entendam o mínimo necessário para planejar o futuro. Que Educação e Cultura sejam meros instrumentos de poder e arrecadação de recursos eleitoreiros.

 

O Rio de Janeiro desafiou e sacudiu a ditadura militar de 1964. O Rio de Janeiro emprestou graça e força à Cultura Brasileira para semear consciência crítica nas letras do tropicalismo, nas páginas do Pasquim, nas peças de Nelson. E em milhares de obras de cariocas mineiros, cariocas maranhenses, cariocas paulistas, cariocas baianos…

 

Para além das salas de espetáculo, precisamos urgentemente de políticas de cultura que ensinem a narrativa dramática; que formem platéia; que ensinem a ler e escrever; que ponham a cultura em efervescência. E que não se curvem para políticos comprometidos apenas com a partilha (dos votos?)… Que não permitam medíocres nos conduzindo lentamente para o matadouro.

 

Mas o Rio se cala como uma moira grega. Já cego e com um olho profético, só tem voz e vontade para anunciar a inevitável tragédia, que transforma nossos Templos de Cultura em templos de fundamentalismo evangélico. Qual será o próximo golpe?

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