O sétimo dia

23/03/2020

Há sete dias que não te vejo.

Pior: me rasgo sabendo que estão trancados no mesmo lugar.

Torço para que o convívio forçado arruine de vez seu casamento. 

E sofro imaginando que pode ser justo o contrário.

Melhor nem…

Um filho gerado na crise? Uma compaixão pelos parentes perdidos? Uma recaída em nome dos velhos tempos?

 

Morro de ciúmes, já disse!

 

Hoje é o sétimo dia do juízo final.

O domingo não podia ser mais coerente: nuvens baixas tornam esse dia particularmente sombrio. Uma neblina espessa desce pelas encostas, turvando de vez os horizontes.

Minuto a minuto a mesmice martela os meus pensamentos, ora nas mesmas inquietantes notícias; ora nos mesmos ruídos que sobem da rua.

Tento reler Camus, mas a angústia do apocalipse é latente. Volto ao noticiário…

Não há alento. Não há verdades. Não há coerência.

Quantos de nós estarão por aqui pela Páscoa?

 

Padecemos de múltiplas faltas: leitos, respiradores, caráter, governos, juízo.

Adiamos o inadiável, e muitos não terão amanhã.

Acumulamos por precaução.

Nos defendemos ligando o foda-se: estocamos o que não precisamos.

E morreremos com uma simples falta de ar...

 

Peço socorro às memórias de nossa paixão. E tudo piora.

Quando a terei novamente em meus braços?

Quando seus lábios me reencontrarão para juras de amor sussurradas em leves carícias?

Ah, minha doce e bela Catherine de muitas tardes de entrega e prazer...

Por quê me descuidei de você?

 

 

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