Ronan Soares, pioneiro de Brasília

Uma luz se apaga no Planalto Central.

Pioneiro de Brasília, candango do Jornalismo maiúsculo, Ronan chega a Brasília, em 1957, quando a capital do Brasil era sonho de poucos contra a oposição de muitos. Juscelino, Israel, Niemeyer, Bernardo Sayão, rompem a fronteira do novo Brasil. Brasília da Novacap é terra vermelha, poeira e, quando chove, barro. Não tem bares nem pinga, como na sua amada Araxá; tem álcool com água e açúcar, o “desdobro”. E trabalho. 

25 de Agosto de 1961. Jovem redator da Rádio Nacional em Brasília, de plantão pelas comemorações do dia do Soldado a que devem comparecer o presidente Jânio Quadros e seus Ministros. E lá estão, alguns insones pela noite atribulada, entre eles o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar, e Quintanilha Ribeiro, chefe da Casa Civil, olhos marejados. Cai nas mãos de Ronan, vazada não se sabe por quais forças ocultas – já que havia suspeita de um golpe em curso – o texto da carta renúncia, de umas 10 linhas, que o presidente Jânio Quadros
manda encaminhar ao Congresso Nacional, imaginando que o clamor público grite pela sua permanência. Não é o que acontece: imediatamente, o Congresso frustra-lhe o autogolpe de Estado e trata de pôr logo outro no lugar. Pelo rádio, em voo para a Base Aérea de Cumbica, os auxiliares diretos ficam sabendo que Ranieri Mazzilli já fora empossado.

Ronan não perdia notícia. Em julho, outro vazamento chegara à mesma Rádio Nacional, informando sobre a condecoração do líder revolucionário cubano Che Guevara. Quintanilha reclamou com José Aparecido e Castello Branco: em casos assim, a Secretaria de Imprensa deveria retardar a divulgação até ouvir a chefia do Gabinete Civil. E não vazar a notícia pela Rádio Nacional.

1964/1965. Ronan faz a cobertura do Palácio do Planalto, como repórter da Sucursal do Estado de São Paulo em Brasília. São dias que prenunciam trevas. O Presidente Marechal Castello Branco convoca a seu gabinete o General Mourão Filho, o integralista do Plano Cohen que amava pijamas de seda vermelhos e que, em 64, contrariando sua ordem, faz avançar sobre o Rio as tropas de Minas, na apressada Operação Popeye contra o perigo vermelho.

Revolucionário de primeira hora, preterido para o Ministério, preterido para o Comando do I Exército, encostado no STM, sai do encontro de puxão de orelhas com cara de poucos amigos. Dirigindo-se em marcha militar para o carro que o aguarda, é interpelado por uma voz mansa: “General, general? Como foi a conversa? O que o senhor ouviu do Presidente? Os senhores falaram de política?”, inquire Ronan. Mourão entra no carro, balbuciando, em resmungos, algo para seu ajudante de ordens. O militar volta e aproxima-se de Ronan, com um esboço de confidente: “O General manda dizer o que sempre diz, isto é: que, em matéria de política, é uma vaca fardada”. Manchete de O Estado de São Paulo, dia seguinte. “Mourão: Sou uma vaca fardada”.

Ano de 1982. Ronan, Editor de Política do Jornal Nacional. À porta da Vênus Platinada, no Rio de Janeiro, o ex Ministro da Fazenda e do Planejamento, Mário Henrique Simonsen, saindo de encontro matinal com Dr. Roberto Marinho, cruza com o Governador Paulo Maluf, que chega para almoço. Simonsen, colaborador dos governos Geisel e Figueiredo, e sempre torpedeado
por Delfim Neto, conhece bem as razões da crise externa de 82: é resultado do pacote econômico delfiniano, desastroso, de 80. Em economia, diz Simonsen, não existem almoços grátis. Já Maluf, mal visto pelos militares que calibram a abertura lenta e gradual rumo às Diretas Já, busca cacife para disputar prestígio nos corredores palacianos contra seu notório adversário ACM. “Mário!!!”, “Paulo!!!” E abraçam seus paletós tão efusivamente, trocando tantos afagos e tapas nas costas, que Ronan, assistindo à cena, comenta: “Vocês acabam de testemunhar um episódio raro de prestidigitação em que as carteiras de um e outro trocaram de bolsos tantas vezes que, cada um, afinal, segue feliz com o seu próprio dinheiro”. Mesmo desrespeitando a trajetória de Mário, Ronan não perdia a piada. Simonsen estava preocupado com ópera e com a superestimativa dos custos de bem-estar da inflação para baixas taxas de juro e fórmulas de conversão da contabilidade nominal em contabilidade real em tempo contínuo...

Anos 80, Rio de Janeiro. Numa tarde de almoço, Dr. Roberto adentra o restaurante da diretoria, pela porta privativa, ciceroneando o jovem Miguel Pires Gonçalves, recém-nomeado Superintendente Executivo da Rede Globo, e vai sentar-se justamente numa cadeira que escondia um prato esquecido. Incomodado, Dr. Roberto manifesta sua insatisfação com tamanho desleixo e quer saber quem foi o responsável. Ronan, de outra mesa, sem levantar a voz, esclarece: “Não foi o Aleixo, Dr. Roberto. Foi o Forget”, referindo-se ao diretor-secretário Luiz Eduardo Borgerth. Dr. Roberto gostou tanto da boutade, que sorriu com os olhos e mudou de assunto.

Se não levantava a voz, não baixava a cabeça. Tudo o que fez, foi de seu jeito mineiro. Uma crise na cúpula da Globo, ou alguma merda que havia ido para o ar, merecia igual comentário: ”Acho que desta vez vão demitir mais um contínuo”. Despojado, não almejava cargos de chefia nem holofotes. Na retaguarda, escrevia textos inteiros para repórteres no front.

No entanto, vestia a camisa da empresa como se fosse dono. Certa noite, ligou-me preocupado. Já falara com o primo Toninho Drummond e queria saber minha opinião sobre o revisionismo editorial do Grupo Globo em relação à Revolução de 64, agora Golpe. Parecia-lhe que o mea culpa, mais do que um afago oportunista aos novos tempos de Lula, um desrespeito à memória do jornal e do falecido Dr. Roberto. Não está claro se é arrependimento ou condenação, mas não se remexem ossos do baú com tamanho estardalhaço, observou.

Ponderei: conheço os filhos; devem ter refletido bastante sobre o assunto, examinando prós e contras para tomarem a decisão mais acertada. Devem saber o que fazem. Só espero que não voltem a repetir o comportamento. Mais tarde, registra-se, repetiriam, no impeachment de Dilma, no temerário episódio da garagem de “temer que manter isso aí, viu” e, agora, no bolsonariano momento do “já é hora de Jair embora”. A liberdade editorial é corolário da liberdade de expressão, o jornalismo de resultado põe em risco a isenção do jornal e compromete o seu legado.

O legado de Ronan Soares será de fidelidade heróica ao Jornalismo Brasileiro com maiúsculas. O que fez, fez, E o que não quis fazer, não fez. E, hoje, na Brasília que o acolheu, vê a sua passagem.

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