O Desembargador, o Guarda e o léxico

21/07/2020

Corre mundo, desde domingo, a imagem grotesca de um advogado alçado aos píncaros do Estado tentando desqualificar um servidor no cumprimento de seu dever.

Muitas são as questões subjacentes, como essa mesma de como ele chegou onde chegou, já que para ser Desembargador não precisa sequer ser Juiz. Basta ser um ativista da Ordem dos Advogados, ou amigo do Rei, no caso os governadores, que podem sempre nomear um ou outro por uma regra a que chamam de "quinto".

Teríamos outras menos relevantes, como o étimo dessa lustrosa função da Justiça, que remonta ao nascedouro de Portugal, e que acolhemos como verdade absoluta e inconteste de nosso Sistema.

Isso, para não falar na capacidade que aquele ser humano demonstra não ter para julgar ações que envolvem direitos de família, de empresas, de Direito Penal e, muitas vezes, de Estado.

Mas a questão que trago para esse espaço é de como a notícia foi reverberada: o desembargador que humilhou o guarda.

Pois eu vi justamente o contrário: vi uma pessoa investida numa autoridade limitada e transitória, mas nem por isso intimidada pela arrogância do "príncipe", impondo os limites da cidadania e se fazendo ouvir com a ajuda das redes sociais.

Mereceram e receberam justas homenagens da Prefeitura, que os coloca num patamar muito distante daquele que pretendeu humilhá-los.

Humilhados estariam os Guardas (e todos nós) se a sociedade não tivesse olhos atentos para esse entulho autoritário. Se o seu superior hierárquico o recolhesse ao quartel para dar continuidade à desqualificação intimidatória que o gordo nobre se atreveu a fazer.

Humilhado hoje está o Desembargador.

Sua arrogância rodou mundo. Sua fisionomia de glutão está estampada na retina e na memória de todo o Brasil. Humilhados estão todos os condes e barões que insistem em não reconhecer e respeitar a República.

Repetir insistentemente que foram humilhados, só reforça e consolida o entendimento preconceituoso de que eles são "humildes" - palavra que remonta a servo, a servidão e nobreza.

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