O Marechal e os grotões

Jason Prado, DP

Senta que o leão é manso!

A piada não poderia ser mais velha, mas é assim que estamos vivendo: o leão está solto no picadeiro, o público está em pânico, e cada um grita o que pensa.

O objetivo é salvar as próprias bolas.

Está difícil respirar pra muita gente, mas está irrespirável ser brasileiro.

Seria simplório culpar o deputado soldado, o soldo do Deputado, ou os Deputados a soldo...

O que sufoca é o clima de sanatório geral. Não há limite para o grotesco: da professora universitária com sua escrava por quarenta anos em Copacabana, aos arroubos autoritários do ministro da doença, passando, logicamente, pelo presidente com ideia fixa em armas e arrecadação.

Cada dia nos acomodamos mais ao torniquete, como o sapo que se deixa ferver vivo na panela.

O leão não é manso. É irracional e se move apenas por seu instinto predador. E a alcateia, faminta, fustiga a caça e empareda a presa – você, eu, nós!

Nem tão cordeiros, mas pretensos civilizados, crédulos e – por que não? – acovardados.

Acordamos para repetir: não, isso não vai acontecer. Não chegariam tão longe. Nossas instituições são fortes...

E dormimos acreditando no amanhã. Que não chega.

Esse pesadelo teria dia e hora para acabar, se o sistema eleitoral brasileiro não fosse tão sujeito às influências externas: de lobos guarás, das milícias, dos grotões e do conta-gotas populista que troca de nome a cada turno de poder. Isso, pra não falar dos currais que engordam os nomeados, apaniguados, “rachadinhos” e outros comissionados.

O capital lucra com esses desgovernos e se protege corrompendo o voto. Organizando e financiando os mecanismos que perpetuam seus lucros. E exportam seus dividendos para países com os quais jamais nos pareceremos. Dane-se a saúde, a educação, o emprego...

O presidente é apenas o títere grotesco, incumbido de arrombar a porta para soltar o leão.

Não nos enganemos: o pesadelo é real. As alternativas espelham governantes como Hitler e o Generalíssimo Franco. Mas, dadas as características de nosso povo e de nossos líderes, é mais provável que nos tornemos uma paródia da Venezuela de Hugo Chaves. Bufão à frente.

Não seria de todo uma surpresa se o Exército – ou o Congresso – concedessem o título de Marechal àquele que não se cansa de lembrar que é o seu “Comandante Supremo”. Como nem todos conseguem sair do circo a tempo, é melhor nos ocuparmos de prender o leão novamente. E despachá-lo, incontinente, para o circo, o zoológico ou a selva, que ele insiste em deixar queimar.